Uma nova Alpa?

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Em 2008, os governos federal e estadual do Pará, anunciavam que estava “fechado” o acordo para a implementação de um dos maiores projetos que o estado do Pará já havia recebido: a construção de uma gigantesca siderúrgica, que seria localizada em Marabá, a ALPA (Aços e Laminados do Pará), que teria a função de produzir aço, implementando a tão sonhada verticalização da cadeia do ferro.

O referido projeto nasceu de uma grande disputa nos bastidores. O então presidente Lula e a ex-governadora Ana Júlia Carepa, ambos do PT, cobravam da mineradora Vale a implementação de uma planta industrial no Pará que verticaliza-se a produção do ferro, agregando valor ao produto. Meses e meses de negociações entre os referidos governos e a empresa, chegou-se a um
acordo. A Alpa seria uma realidade, construída em Marabá, ao custo de 5 bilhões de reais (valores da época).

Terreno foi concedido pelo governo do Estado a mineradora, que construiria naquele lugar a siderúrgica. As primeiras expectativas indicavam que a obra seria inaugurada em 2010, ainda nos governos que negociaram a sua construção. A hidrovia Araguaia-Tocantins seria a contrapartida do Governo Federal para criar o “corredor” de escoação da produção da siderúrgica. Anos se passaram, houve troca de comando na presidência da mineradora, mudanças nos governos federal e estadual (no Pará com o retorno do PSDB ao Palácio dos Despachos) e nem os poderes públicos citados e nem a empresa cumpriram as promessas.

Alpa alimentou o sonho das pessoas que residem no sul e sudeste paraense, especialmente os habitantes de Marabá que viam na obra, a esperança de dinamizar a economia daquele município e de toda a região. Já se vão 11 anos entre o lançamento do projeto e os dias atuais. 

A Vale tratou o assunto como página virada. Nunca se percebeu esforços por parte da mineradora em tornar a Alpa uma realidade, justificando a inércia sobre o caso pela falta de cumprimento dos acordos por parte dos governos, neste caso a falta da hidrovia. 

Alpa era muito mais do que mais um projeto de muitos já implementados na Amazônia, representava a quebra da lógica perversa do modelo de desenvolvimento pensado e imposto para a Amazônia desde a década de 1980. A tão sonhada e esperada verticalização mineral ficará – mais uma vez – na retórica? Até quando continuaremos a exportar minério em seu estado bruto, sem agregar valor, penalizados pela Lei Kandir? Até quando iremos manter o modelo de desenvolvimento colonial que concentra riqueza e deixa gigantesco lastro de pobreza por onde passa?

Um Novo Tempo?

Na última quinta-feira (23), no Teatro Maria Sylvia Nunes, na Estação das Docas, em Belém, o governador Helder Barbalho anunciou que a pretensão de verticalizar a cadeia do minério de ferro, poderá se tornar realidade. Na ocasião foi assinado protocolo de intenções para implantação da primeira planta de verticalização de minério de ferro do Pará, no município de Marabá (região sudeste).

O investimento na implantação da usina de laminação de aço é de US$ 450 milhões, equivalente a cerca de R$ 1,5 bilhão, e tem como parceiros as empresas Vale e China Communication Constrution Company (CCCC), controladora da brasileira Concremat. Segundo o anúncio a Vale e CCCC devem apresentar até o ano que vem o projeto e o licenciamento completos, com previsão de início das obras para 2021 e funcionamento já a partir de 2022. 

Tudo por enquanto não passa de pretensões. O que ocorreu foi assinatura de um protocolo para no futuro tornar tal empreendimento uma realidade. Para tal se faz necessário ter força política para que a tão esperada siderúrgica saia do papel, e para que não fique na etapa de intenções e fomente verdadeiramente um novo tempo da mineração no Pará. A Alpa foi um exemplo negativo de como a falta de visão estratégica e união política podem causar ao Pará. Que o novo projeto de verticalização mineral não seja uma nova Alpa. As autoridades precisam cobrar. De boas intenções o inferno está cheio.

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