A Era da Burrice

Estamos emburrecendo enquanto sociedade. Sim, infelizmente, estamos. A burrice se tornou um problema estrutural no Brasil. Ela está em todos os lugares, e se faz cada vez mais presente. Como dizia Simone de Beauvoir: “se não for enfrentada, não há chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espaços institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro público, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados”. 

Outra triste constatação: ser burro não constrangi mais. Antes, ser burro ou ter conhecimento altamente limitado sobre os mais variados assuntos criava certo constrangimento; as pessoas tinham vergonha em opinar sobre o que não conheciam com o mínimo de profundidade; outras nem sequer opinavam. Já se foi à época em que se buscava estudar para depois emitir posicionamento. Quando era público, pior ainda, ai que o receio de que se pudesse ser taxado de burro, fazia com que as pessoas nem ousassem se meter em assuntos que não fossem próximos de suas atuações, por exemplo, profissionais.

Mas tudo isso mudou. Hoje ser burro é status. Opinar sobre tudo, mesmo sem ter conhecimento virou regra. Se permitiu que se tenha “especialistas” em tudo quanto é lugar. Hoje se forma opinião mesmo sem ter opinião. A Internet acelerou esse processo. Hoje se celebra a burrice. Se desmerece a produção de conhecimento, este produzido com base científica. Nega-se a Ciência com todas as forças.

Em 2015, durante a cerimônia de outorga prêmio de doutor honoris causa na Universidade de Torino, o romancista, filósofo e teórico da literatura e da linguagem Umberto Eco deu uma de suas declarações mais polêmicas. Segundo o célebre autor de O nome da rosa, da Editora Record, “a internet deu voz a uma legião de imbecis”. O comentário algo ranzinza resultou em algumas reflexões interessantes sobre as ilusões de nosso entusiasmo digital.

“No caso da internet, não penso que ela possa fazer a crítica da vida, porque o trabalho crítico significa filtrar, distinguir as coisas, ao passo que a internet é como o personagem do [escritor argentino Jorge Luís] Borges, Funes, memorioso: ela lembra de tudo, não esquece nada. Seria preciso exercer essa crítica — filtrar, distinguir — sobre a própria internet. Eu sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar e filtrar informações”, afirmou Eco.

Acompanhando o cotidiano, percebe-se que tal postura se propaga em alta velocidade em grandes e variadas camadas sociais no Brasil. Pessoas defendendo o indefensável, como tortura, regime autoritário. Negando a ciência, pesquisa, base de dados, estudo, leitura. O estado paralelo do negacionismo se impõe, e sem constrangimento. E isso tudo sustentado por informações falsas, muitas delas sem nenhum fundamento, mas que são propagadas como se verdadeiras fossem. E acabam até, infelizmente sendo, agravando ainda mais esse mundo paralelo em que muitos estão vivendo e que rivaliza com o real.

Milhões de brasileiros vivem em distopia. A era da pós-verdade, em que tudo passa a ser reconstruído ao entendimento de cada um. O que justifica – sem base nenhuma científica – ir de encontro as recomendações, por exemplo, da Organização Mundial da Saúde (OMS)? De especialistas que passaram décadas estudando, que tem experiência e trabalhos reconhecidos em determinadas áreas? Como aceitar que uma narrativa de rede social, sem base técnica que a fundamente, se sobrepõe ao que já foi testado e há alicerces teóricos que o sustenta? Como defender ir por caminho diferente ao que a esmagadora maioria dos países estão adotando no combate à pandemia do novo coronavírus? Tomar vacina lhe faz virar jacaré…

A distopia à brasileira é algo perigoso, pois atenta contra as leis, a ordem, o Estado de Direito, aos poderes constituídos e o que mais se mostrar racional. E isso apenas no achismo ou em pós-verdades impostas que não se sustentam no primeiro debate, mas que se propagam como vírus, alimentando narrativas das mais absurdas possíveis. A ignorância, além da falta de ética e moral, alimentam esse mundo paralelo. A distopia não é uma exclusividade brasileira, ela existe em dezenas de países, mas aqui tal universo paralelo criou bases surreais e perigosas. O desafio é enfrentar tal irracionalidade.

Ser burro não é mais problema, não cria constrangimentos. Hoje, ser inteligente ou estudar muito não é chamativo, pelo contrário, parece afastar as pessoas. A Era da burrice parece ter chegado para ficar. Pior para a sociedade.

Imagem: reprodução Internet. 

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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