A triste sina de Barcarena

A cidade de Barcarena, nordeste do Pará, foi tomada por uma fumaça branca na noite desta segunda-feira (6). Segundo moradores, um dos depósitos de produtos químicos da mineradora Imerys S.A. teria explodido. A empresa confirmou o foco de incêndio. No local do sinistro estava armazenado o produto químico Hidrossulfito de Sódio, um pó cristalino branco com um odor fraco de enxofre.

A citada empresa é uma multinacional francesa especializada na produção e processamento de minerais industriais. Fundada em 1880, tem sua sede em Paris. A Imerys possui operações em 50 países, com cerca de 250 instalações industriais, incluindo 47 na França, e emprega cerca de 16.000 funcionários. No Pará, possui três plantas industriais: uma em Barcarena (a maior de todas e a mais suscetível a acidentes) e duas em Ipixuna do Pará.

Sobre o caso, a empresa em nota, informou que foi identificado um foco de incêndio em um dos galpões da planta de beneficiamento da empresa, em Barcarena. O evento já foi controlado, não havendo qualquer acidente ou envolvimento com pessoas. A empresa está neste momento apurando as causas do ocorrido.

Acidentes em Barcarena já deixaram de serem casos isolados. Sempre ocorrem, geralmente com graves danos ambientais. Assim como a Imerys, a Cadam é outra empresa que trabalha com o caulim, um dos maiores responsáveis pela contaminação dos cursos d’águas da região.

Seguindo o rito “desenvolvimentista”, Barcarena, assim como outros exemplos, sofreu grandes intervenções urbanísticas para abrigar esses projetos. Foi erguido pela Albras/Alunorte, Vila dos Cabanos, uma cidade planejada, para abrigar os empregados das referidas empresas, especialmente as grandes da cadeia da bauxita. Hoje, a cidade não passa de um esbouço do que foi planejado, sendo hoje um espaço sem controle por parte das empresas, apresentando acelerado processo de sucateamento.

As antigas cadeias produtivas do município, especialmente a pesca, meio de sobrevivência das populações ribeirinhas, foram quase exterminadas por esses problemas ambientais. Nos últimos anos o modelo de desenvolvimento pensando e implementado em Barcarena se esgotou. Espraiou pobreza, cristalizadas em bairros sem infraestrutura alguma, criando bolsões de miséria pela cidade. Os empregos ficaram escassos, os problemas ambientais e sociais aumentaram consideravelmente.

Entre todos os problemas ambientais, nada se compara com o ocorrido com o navio Haidar, que afundou no dia 6 de outubro de 2015, no porto de Vila do Conde, em Barcarena. Transportava cinco mil bois vivos e 700 toneladas de óleo para a Venezuela. Os animais morreram afogados, presos na embarcação. Parte do óleo vazou para o rio. A tragédia atingiu a vida de milhares de pessoas nessa região. As famílias prejudicadas contam que até hoje não foram indenizadas por causa da tragédia ambiental, social e econômica.

Em fevereiro de 2018, a cidade de 150 mil habitantes foi atingida pelo vazamento de bauxita das operações da mineradora Hidro Alunorte. Uma barragem vazou e contaminou as águas na região. A empresa até hoje nega a hipótese de vazamento e os atingidos pela poluição, que deixou vermelha a água dos rios por vários dias, seguem sem atenção.

Segundo dados da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), criada na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) em 2018, com a finalidade de apurar os recorrentes crimes ambientais ocorridos em Barcarena, com ênfase aos fatos ocorridos com a Hydro, no que se refere a vazamentos de resíduos e descarte irregular de material nos córregos, 26 acidentes ambientais ocorridos na região desde o ano 2000.

Enquanto os diversos órgãos buscam se entender e trilhar um caminho de ação prática para atenuar os problemas, a população de Barcarena continua pagando uma conta muito cara, emitida pelo modelo de desenvolvimento, sempre com grande ônus socioambiental, e com questionável retorno positivo às regiões de implantação desses projetos. Dê exemplo em exemplo, a Amazônia segue o seu triste e intermitente rito desenvolvimentista “rabo de cavalo”. Barcarena já perdeu toda a sua identidade histórica. O “progresso” a levou e mantém a região como um grande almoxarifado dos países centrais. Nada, além disso. Até quando?

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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