Um ano de governo. O perigoso mote de campanha: “reconstrução”. O prefeito que joga contra à própria gestão. O que esperar no próximo ano?

Em poucos dias, Aurélio Ramos de Oliveira Neto, 41 anos, encerrará o seu primeiro ano no cargo de prefeito de Parauapebas. Um feito, sem dúvida, levando em consideração seu histórico de vida. Mas não é isso que irei tratar aqui. Não tenho interesse de escrever a biografia do citado. Vamos tratar da figura de gestor, de quem senta na cadeira mais importante da capital do minério.

Antes de chegar ao posto político mais importante das regiões Sul e Sudeste do Pará, e controlar o terceiro maior orçamento municipal do Norte do Brasil (R$ 2,3 bilhões, segundo a LOA do ano corrente), Ramos teve uma conturbada passagem pela Câmara dos Vereadores, em que foi afastado duas vezes, em uma verdadeira lambança regimental de seus pares.

Em uma gestão dominada por flagrantes ilegalidades e acusações graves de desvios de recursos públicos, a desastrosa última passagem de Darci Lermen pelo Executivo, marcado por uma vergonhosa terceirização de poder e gestão aos vereadores, muitos destes controlando secretarias, enriqueceram da noite para o dia. Os indicados por eles para comandar as pastas, a maioria também nem precisa mais trabalhar, estão “aposentados”.

Foi nesse cenário de caos administrativo, de abandono da cidade, que Aurélio Ramos alicerçou o seu discurso e obteve uma vitória expressiva, com mais de 92 mil votos. Após a festa, viria a realidade. Como o mesmo afirmava em campanha: “É preciso reconstruir Parauapebas”, esse foi o mote de campanha e que alicerçou a disputa eleitoral. Muitas promessas foram feitas, algumas claramente eleitoreiras, sem fundamento técnico, como zerar os buracos da cidade em 90 dias, todas as residências teriam água em suas torneiras. Tais promessas, talvez, nem foram feitas de maldade, evidenciando um estelionato eleitoral, mas pela total falta de conhecimento de Aurélio em relação à gestão pública e aos trâmites burocráticos que a rege.

A questão central deste editorial é saber, passado um ano (levando em consideração o recesso de fim de ano e o período de chuvoso do nosso intenso inverno amazônico), o que foi, de fato, reconstruído em Parauapebas? Temos que ter a noção que o termo “reconstruir” não se resume a uma obra física, a uma construção, mas sim a um contexto geral, que abrange diversas áreas.

Ao ser dito, se quis passar ao eleitor a esperança de um novo capítulo da história recente da capital do minério. Um lugar que seria colocado em outro patamar. Todavia, tal promessa (que geralmente funciona bem para o processo eleitoral, mas torna-se a “pedra no sapato” de uma gestão).

Exemplo disso, foi na eleição de 2016, quando o então prefeito Valmir Mariano disputava à reeleição contra Darci Lermen, que voltava da Bahia, depois de quatro anos para se tornar novamente o mandatário de Parauapebas. O “lourinho” venceu pela terceira vez sob o mote “Governo da Oportunidade”. A proposta foi impactante, haja vista, que a cidade vivia uma grave crise econômica, com milhares de pessoas desempregadas, e Darci se apresentou como o salvador.

O que lhe levou à vitória, logo nos primeiros meses se tornou o seu karma. A pressão para gerar empregos e aumentar os índices de empregabilidade fizeram a avaliação de Lermen despencar. O que era para se o “Governo das Oportunidades” se tornou o “Governo do Improviso”, termo amplamente divulgado por este veículo e que logo ganhou tração na cidade.

Vamos voltar ao presente…

O primeiro ano de gestão de Aurélio Ramos está finalizado. O que esperar para o segundo ano, sem poder utilizar o mantra “de terra arrasada”, depois de R$ 2,3 bilhões terem passado pelos cofres públicos parauapebenses. A Lei Orçamentária Anual (LOA) que ainda será aprovada em sessão extraordinária na Câmara Municipal, será de R$ 2,6 bilhões (expectativa arrecadatória), um incremento de 300 milhões em relação ao exercício anterior.

Mudanças foram feitas no secretariado que, convenhamos, se fazia necessário. Com um ano de gestão se percebe quem consegue desenvolver um bom trabalho, quem não avançou. Em alguns casos nem se trata de incompetência por si só, mas incompatibilidade com os requisitos do cargo ocupado. O caso mais emblemático é o de Joelma Leite, que deixa a Chefia de Gabinete, posto que requer muita habilidade política, o que claramente lhe faltava, passando a ocupar um cargo mais burocrático, no controle da Secretaria de Administração (Semad), mais próximo do seu perfil. Para o seu lugar assume Genésio Filho, figura bem-quista, com excelente trânsito. O seu maior desafio vai ser lidar com um chefe imprevisível, uma verdadeira “bomba-relógio”.

Como dito em outros artigos, a postura e narrativas feitas por Ramos jogam contra à própria gestão. Naquilo que se avança, uma obra entregue, tudo é apagado quando o prefeito gera uma nova polêmica. Quando o mesmo resolve passar uma ou duas semanas quieto, é justamente o período, a janela, que o governo aparece, além de gerar repercussão positiva.

O ano de 2026 será de disputas eleitorais, uma “pimenta” a mais para qualquer gestão, sobretudo, em uma prefeitura bilionária. A pressão dos políticos de fora será grande, cobrando o cumprimento de acordos. O prefeito Aurélio Ramos terá que mostrar uma grande habilidade nesse processo, o que, de fato, não se percebeu até o momento.

O próximo ano promete aumentar a pressão em relação à “reconstrução” de Parauapebas, considerada “capenga” no ano corrente. As desculpas não terão efeito. O chavão “faz um teste comigo” terá efeito devastador daqui a um ano se a gestão não avançar como esperado.

Para o bem de sua gestão, a tão propagada reconstrução precisa começar primeiro pelo próprio prefeito Aurélio Ramos. Pelo visto, a subida da montanha não sutil efeito, muito menos atuação de media trainer.

Imagem: Pebinha de Açucar

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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