Em Parauapebas a propaganda é a alma do negócio

“… Não que sejam universos perfeitamente separados, o do jornalismo e o da publicidade. Há uma sinuosa membrana de contato entre ambos, eles se interpenetram e se embaralham. (…) O que importa é que, no plano formal, a separação entre os dois universos é um ideal de qualidade cultivado pelo jornalismo e compartilhado pelo seu público. A separação entre os dois discursos, por mais imbricações que se fiem entre eles, corresponde a uma ampla e profunda expectativa da cidadania e, por isso, pode-se dizer que é uma separação legitimada pela prática da comunicação social.

Dessa distinção, o jornalismo retira sua credibilidade, sua força, seu valor de mercado e seu peso institucional. É da mesma distinção que a publicidade retira o seu salvo-conduto para empregar abertamente técnicas de sedução, para buscar o vínculo emocional, para realçar o apelo de venda. O que o primeiro ganha em fé pública, por meio de rigor, a segunda ganha em poder de atração, por meio de “licenças poéticas”. Essa distinção não foi inventada por ninguém em especial; é produto da sabedoria democrática, nasce da experiência coletiva continuada, ao longo de uma história que não é tão curta assim. Ela é o resultado, podemos dizer, da intuição comunicativa da sociedade democrática.

Os governos democráticos se caracterizam por não permitir que sua linguagem oficial incorra nos desvios totalitários de estetizar o Estado ou de estatizar a estética. (…) Desse modo, tendem a separar as formas de comunicação sob sua guarda…

É inegável a importância do diálogo entre governantes e governados ao longo dos tempos, como forma de legitimação do poder. Os recursos utilizados, evidentemente, foram os mais diversos, mas os propósitos talvez não se tenham alterado tanto.

Ao contrário do que se pode imaginar, não há governo que se mantenha apenas com o uso da força5. Prova disso é que a propaganda governamental foi e vem sendo usada, sobretudo, em ditaduras, como forma de conquistar a população na adesão às ideias do chefe do executivo.

As passagens acima estão no livro “Jornalismo Sitiado” do jornalista Eugênio Bucci, época em que ele atuou como presidente da empresa pública Radiobrás. Bucci narrou como o Governo gasta com propaganda, e mais, como confunde jornalismo com propaganda.

A introdução deste texto é a chamada para um caso, no mínimo polêmico que foi enviado à Câmara de Vereadores de Parauapebas pelo Poder Executivo e que foi apreciado em regime extraordinário pelos edis, ontem, 27. Trata-se do Projeto de Lei 015/2017 que trata do orçamento para gastos de publicidade institucional, ou seja, recurso para que a Assessoria de Comunicação da prefeitura possa exercer às suas atividades ou atribuições funcionais.

Segundo justificativa do governo, o PL é uma correção do percentual sugerido no artigo 42 da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), visando adequar-se à proposição da legislação Municipal que trata sobre as diretrizes orçamentárias para 2018. O pedido eleva os gastos com publicidade que hoje está no limite de R$ 4,9 milhões para R$ 14,8 milhões. Aumento significativo, o triplo dos patamares atuais. Com esse fomento orçamentário, a Ascom passaria a ter mais recursos que diversas secretarias municipais, por exemplo: Cultura (5,5 milhões); Direito e Cidadania (5,4 milhões); Agricultura (5,9 milhões); Comércio e Serviços (3,2 milhões) e Desporto e Lazer (2 milhões). Não é segredo que o governo determinou corte no custeio da máquina. Pastas municipais e autarquias estão em regime de economia e na contramão do processo, a Comunicação terá aumento substancial. Como explicar?

Segundo fontes do blog, atualmente o orçamento mensal da Ascom gira em torno de 411 mil reais. Parauapebas tornou-se um município de porte médio, com mais de 200 mil habitantes, segundo o IBGE. O percentual atual (0,5%) parece não atender as demandas do setor. Sem cerimônia, o governo Darci Lermen já demonstra nesses seis meses que a publicidade e propaganda serão áreas importantes, essenciais durante a gestão. Lermen aprendeu que sem boa comunicação institucional as ações de governo se perdem ou, pelo menos, não são reconhecidas.

Em um município em crise, governo com o slogan “oportunidade”, propaganda e publicidade tornam-se indispensáveis para se manter o “status quo”. Resta saber se com o orçamento turbinado na Comunicação para o próximo ano (período eleitoral), o governo conseguirá manter seus patamares de popularidade e aceitação popular.

Propaganda, marketing e publicidade são tudo hoje em dia na política. Salvam gestões. Que o diga o governador Simão Jatene. Em Parauapebas vamos acompanhar seus efeitos e consequências.  

 

 

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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