Massacre em Suzano nos mostra que ainda precisamos conversar mais sobre armas

Ontem, 13, dois jovens, um com 17 e outro com 25 anos, invadiram uma escola pública, em Suzano, interior de São Paulo, matando oito pessoas e depois atentaram contra a própria vida. Até o momento são dez mortos, e ainda há 11 pessoas hospitalizadas. Ontem, o país parou pelo acontecimento. E ele reacende o debate sobre o uso de armas.

Recentemente, o governo Bolsonaro assinou decreto que flexibiliza a posse de arma, ou seja, o cidadão que atenda a alguns pré-requisitos determinados, poderá ter de forma menos burocrática, uma arma em casa. Portanto, para que fique claro, a posse permite que se tenha um armamento em casa ou em estabelecimento comercial, e só. Não pode haver transporte (se ocorrer deverá atender a outros requisitos específicos). Mas na prática quem garante que essa arma ficará só nesses recintos permitidos, sem que haja o seu manuseio em outros locais?

Informações dão conta que os assassinos planejaram o ataque há bastante tempo, pelo menos com um ano de antecedência. Investigadores também já sabem que os dois fizeram pesquisas sobre atentados em escolas nos Estados Unidos. Pretendiam, por exemplo, fazer um ataque maior do que o massacre de Columbine, em Littleton, no estado americano do Colorado, em 1999, quando Eric Harris, de 18, e Dylan Klebold, 17, mataram a tiros 12 colegas e um professora antes de se suicidarem na escola. Outras 24 pessoas ficaram feridas.

O ato ocorrido em Suzano, faz relembrar outro fato trágico, ocorrido no bairro de Realengo, periferia da cidade do Rio de Janeiro. Wellington Menezes de Oliveira era ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, entrou no estabelecimento de ensino, foi até o pavilhão das salas de aula e atirou aleatoriamente contra os alunos. No ato, 11 crianças morreram e 13 ficaram feridas.

Vamos ficar neste artigo em apenas dois fatos, mas há, infelizmente outros. Essas tragédias reacendem o debate sobre o uso de armas, a sua posse e porte. Horas antes do massacre na escola paulista, o presidente Jair Bolsonaro, em entrevista a alguns jornalistas, afirmou que dorme ao lado de sua arma (mesmo ele sendo um dos homens que possui um dos maiores esquemas de segurança do país). Claro que o presidente não é responsável diretamente pelo fato, mas suas atitudes  e narrativas sobre o assunto, provocam ressonâncias, sobretudo em seus seguidores. Não há como negar que existe uma apologia ao uso de armas, e ele é feito de forma enérgica pelos Bolsonaro. É claro que ele, o presidente, não pode ser responsabilizado pelo ato tresloucado de duas pessoas. Não se trata de responsabilização penal, mas de responsabilidade política. E, nesse caso, seu discurso está na raiz do problema, talvez por isso, o mandatário do país tenha demorado muito a se manifestar sobre o assunto, deixando de lado a sua agilidade em comentar fatos em rede social.

A tristeza que se abate sobre nós com a tragédia em Suzano, também acende um alerta. A cultura do ódio, da intolerância e os mais variados tipos de preconceitos que se espalharam pelas redes sociais, têm consequências reais e, infelizmente cada vez mais fatais. O Brasil precisa lutar contra a cultura da violência e a banalização desta, ou seguiremos contanto vítimas inocentes e fatos trágicos como o ocorrido na escola, em Suzano.

As escolas estão virando alvos preferenciais de massacres como o ocorrido na cidade paulista. Seus protagonistas geralmente são ex-alunos que sofreram bullying, e com isso alimentaram ódio, revolta. A juventude de hoje está sem rumo, sem interesse, perdida em meio a uma sociedade multifacetada, igualmente sem rumo. Analiso isso com certa propriedade, pois sou professor, e há anos lido com crianças e adolescentes. A falta de interesse na Escola é algo latente, e por falta de vontade, transforma-se em indisciplina quase generalizada.

Não precisamos de mais armas, muito menos discursos que incitem posturas agressivas. Não precisamos ensinar nossas crianças a fazer “arminha” com as mãos. Estamos criando uma cultura beligerante que não é nossa; militarizando discurso e a própria sociedade civil, a troco de quê?

Ter, no caso da posse, uma arma em casa seria a solução para os nossos problemas de segurança pública? Creio que não. A história pelo mundo confirma essa negativa.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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