O labirinto venezuelano

Durante boa parte dos séculos XIX e XX, a América Latina buscou criar seus mitos fundadores, primeiramente através das revoluções liberais de independência e, posteriormente, por meio de “uma nova independência”, quando eclodiram as perspectivas revolucionárias de âmbito social. Em perspectiva, as nações latino-americanas alcançaram suas liberdades formais e deram margem para que as independências, de fato, ocorressem com a libertação de seus povos oprimidos.

Diversos foram os mitos fundadores criados por intelectuais, movimentos e partidos políticos, que entrelaçavam a perspectiva liberal das lutas contra as elites e o imperialismo, juntamente com a perspectiva nacionalista-socialista, que se espraiou pelo continente quando a Revolução Cubana explodiu como um novo divisor de águas da cultura política latino-americana.

Foi nesse contexto que a Venezuela, a partir de 1999, quando Hugo Chávez chegou ao poder, fundou o mais recente mito fundador da região ao aproximar Simón Bolívar e Che Guevara nas etapas de um processo revolucionário que culminaria na Revolução Bolivariana, liderada e patrocinada pelo país mais rico da região em petróleo.

Desencantados e desiludidos com o esgotamento da Revolução Cubana, diversos intelectuais e movimentos viram na vitória do chavismo a redenção de um novo projeto revolucionário, o que seria uma alternativa ao “neoliberalismo imperialista imposto pelo imperialismo norte-americano” nos anos 1980 e 1990. Era como se Macondo, a cidade imaginária de Gabriel García Marques, resolvesse seus problemas em definitivo.

Nos primeiros anos do novo século, centenas de congressos acadêmicos passaram a se debruçar pelo fenômeno do chavismo. Surgiam os grupos de países interessados em se aliar a essa perspectiva. Eleições na Bolívia, Paraguai, Brasil, Argentina, Nicarágua, entre outros, demonstravam que uma nova onda vermelha viria libertar seus povos e romper em definitivo com seu passado desigual e opressor. Vozes mais eloquentes como a do historiador Eric Hobsbawm chegaram a creditar esse processo como o surgimento do “socialismo do século XXI”.

Todavia, a redenção de mais um mito fundador latino-americano precedeu sua queda, quando a crise econômica de 2008 revelou os limites econômicos do boom das commodities que tanto serviu para um desenfreado aumento de gastos sociais sem um projeto sustentável de desenvolvimento. Em poucos anos, a Venezuela viu seus índices de redução da desigualdade, diminuição da pobreza e crescimento econômicos sofrerem aumentos e quedas vertiginosos, transformando-se na maior tragédia humanitária da América do Sul nas duas últimas décadas.

Após a morte de Chávez, a situação piorou cada vez mais com a chegada desastrosa de Maduro ao poder. Golpes na democracia venezuelana já eram aplicados pelo chavismo em seus tempos áureos, mas a violência e repressão ganharam novos contornos com Maduro. Em uma década, quase oito milhões de refugiados saíram do país, a violência tornou-se endêmica, o PIB diminuiu em 75%, a inflação chegou a ser a maior do mundo e a pobreza foi o único elemento democratizante do chavismo. O povo venezuelano empobreceu como um todo.

No último domingo, 28 de julho, um novo golpe foi deferido contra a democracia e a República venezuelana, quando a autocracia de Maduro fraudou, novamente, um processo eleitoral, desde a campanha até a não divulgação das atas eleitorais pelo Conselho Nacional Eleitoral, que antecipou a vitória do chavismo sem demonstrar sua veracidade.

Dessa vez, nem os aliados mais próximos, como o Brasil, de Lula, apoiaram, de imediato, a vitória de Maduro. O desgaste do chavismo ocorre, também, em uma conjuntura política desfavorável na região, quando diversos países se opõem ao projeto bolivariano, inclusive países liderados pela esquerda, como ocorre no caso do Chile.

Diante disso, cada vez mais o cerco se fecha para o chavismo, que assim como o projeto revolucionário cubano, esgotou-se em um labirinto sem saída. E quanto mais tempo prolongar esse sofrimento nacional, maiores serão os desafios para que um novo governo possa recolocar a Venezuela no eixo da normalidade institucional e no reencontro com a democracia.

Por Victor Missiato, professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré, analista político e Doutor em História.

Imagem: reprodução Internet.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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