Trocando de Pele

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O título deste artigo de opinião foi tomado de empréstimo do jornalista Carlos Andreazza, da Bandeirantes. Ele reflete muito bem o momento e o que ainda está por vir no governo do presidente Jair Bolsonaro. O termo “Trocar de pele” nos remete à mudança, exatamente o que está acontecendo, esta de forma progressiva e de perfil silencioso. Como o citado jornalista diz: “Há método”.

Em novembro do ano passado, o Blog analisou os movimentos políticos que vinham do Planalto Central brasileiro. No campo externo, países vizinhos ao nosso, exemplo do Chile, eram tomados por manifestações por conta da crise social, esta promovida por medidas neoliberais. Àquela altura, por aqui existia preocupação em relação ao cenário social do país. Os avanços na referida área ocorridos em governos anteriores começaram a regredir no governo Temer e agora no de Bolsonaro.

Até o momento da pandemia, o governo não esbouçava nenhuma ação em direção ao social. Paulo Guedes é quem toma conta da economia, e a ela sempre direcionou modelo neoliberal, seguindo o que já havia dito em campanha. Ainda no período de campanha, quando o nome de Guedes já estava definido como o novo ministro da Fazenda (Trocou-se o termo para Economia quando iniciou o governo) já estava claro (e dito à época por este Blog) que a nova gestão teria intenso direcionamento liberalista no campo econômico. A proposta era vender tudo público, cortar o máximo possível os gastos, promover reformas; via receituário que nós conhecemos por essas bandas.

Tudo estava caminhando conforme planejado, os projetos de privatização estavam acertados, pacotes de concessão prontos; o Estado brasileiro seria o “menor” da história republicana até aqui. Nem nos governos Collor e FHC se viria algo assim. Ai veio a pandemia e com ela a interrupção total dessas medidas. O neoliberalismo não se mantém em pé em cenário que estamos vivendo. Nesses momentos, o Estado é quem toma as rédeas e assume o processo de condução de tudo. Os neoliberais somem ou ficam calados. Os governos passam a ser socorristas dos mercados.. Um neoliberal em época como a que estamos vivendo, não tem discurso, não tem narrativa. Está morto politicamente. Guedes está assim dentro do governo.

A questão é que a condução desastrosa da pandemia por parte do governo, em especial por ordens do presidente, que sempre, desde o início, relativizou o problema, desmerecendo as suas consequências, criou um crise de popularidade. Aliados passaram a fazer críticas, outros se afastaram. Até a data de publicação deste artigo, pouco mais de 63 mil brasileiros perderam a vida. O Brasil tornou-se o segundo país no mundo em quantidade de infectados e mortos. Somos indiscutivelmente um mau exemplo internacionalmente.

O descaso do Palácio do Planalto em relação à realidade, fez com que a popularidade de Bolsonaro caísse. Registra – segundo diversas pesquisas – o menor nível desde quando o governo começou. Além da economia não ter “decolado” conforme promessa de Guedes,isso mesmo antes da pandemia, o que ocasiona, de quebra, a diminuição da base social do governo. Desde o início, o auxílio emergencial que o governo – via Ministério da Economia – quis repassar à população no valor de R$ 200,00 foi alterado pelo Congresso Nacional que definiu por três vezes maior o valor (na verdade os congressistas aprovaram 500 reais, mas o Palácio do Planalto a contra-gosto, aceitou e para ter os “louros” da proposta, a subiu para R$ 600,00). Tal medida foi um tiro de misericórdia em Paulo Guedes. Essa análise feita há meses, sob o título: “O Isolamento de Guedes” (Leia Aqui).

O auxílio emergencial fez subir a avaliação do governo, e justamente no nicho que ele não estava voltado: as classes menos abastadas. Publico este que antes era da Esquerda, em especial do PT, agora passou a ser almejado pelo governo Bolsonaro. Como dito aqui e em outro artigo, Guedes está morto politicamente. Suas propostas não caberão mais no governo. Primeiro por conta da pandemia; segundo porque o governo – por questão de sobrevivência política (sem apoio social, processos de impeachment são mais fáceis de prosperar) precisa melhor seu índice de apoio.

Seguindo essa linha, o governo agora trata de algo maior: a substituição do Bolsa Família (ainda muito ligado politicamente ao PT) pelo que está se chamando de “Renda Brasil”, que além do público atual do Bolsa Família, também incluirá trabalhadores que hoje exercem atividades informais. O ministro Paulo Guedes afirmou que o programa terá valor maior do que o Bolsa Família, algo em torno de R$ 300 por mês por família.

Tal medida deixa claro que o governo, como bem disse Andreazza, está “trocando de pele”. Irá seguir por um outro caminho, este alicerçado pelo social, a sua “tábua de salvação”. Bolsonaro está decidido. Pior para Guedes e sua política neoliberal. Melhor para o país que, se tais promessas ocorrerem na prática, estaremos distribuindo melhor a renda. Bem longe do ideal que seria um programa de renda mínima. Porém, a classe política brasileira em sua ampla maioria não está preparada para esse debate.

O governo Bolsonaro “troca de pele” por sobrevivência. Não há complacência com os mais necessitados. Nunca teve. A realidade fez o governo mudar de foco. Há 36 pedidos de impeachment na Câmara Federal e um base social cada dia menor.

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