A incursão chinesa no setor mineral brasileiro e os desafios do capital nacional

O Brasil é um país abençoado por Deus, já dizia Jorge Ben, com florestas, clima, população, extensão territorial, e certamente com vastas reservas minerais, seja de uranio, ferro, petróleo, minerais críticos, mas infelizmente cada vez mais nos afastamos de um papel de destaque no palco estratégico das potências globais do setor de mineração. Esta fragilidade não passou despercebida para a China, que assim enxergou a oportunidade. Nos últimos três anos, uma tendência notável tem sido o crescente desembarque de empresas chinesas no nosso país para a aquisição de ativos minerais brasileiros, um movimento que levanta discussões importantes sobre o futuro da soberania mineral do País e a capacidade de grupos nacionais em competir neste cenário.

A análise dos movimentos recentes de empresas Chinesas no mercado mineral brasileiro revela um apetite cada vez mais robusto por operações de grande porte. A presença chinesa no setor não é novidade — iniciada com a CMOC Group, já consolidada na produção de nióbio e fosfato em Goiás. Entretanto, a escala e a frequência das aquisições realizadas nos últimos anos chamam atenção e merecem reflexão.

Um dos exemplos mais recentes e impactantes dessa dinâmica é o acordo dela (CMOC) para adquirir as quatro minas de ouro da Equinox Gold no Brasil, por um valor que pode chegar a US$ 1,015 bilhão. Com a conclusão da transação, prevista para o primeiro trimestre de 2026, a CMOC, que está entre as principais produtoras globais de materiais estratégicos como cobre e cobalto, ampliará e diversificará, de forma significativa, sua atuação no Brasil, passando a operar ativos na Bahia, Maranhão e Minas Gerais. Essas minas, juntas, têm uma projeção de produção de 250 mil a 270 mil onças de ouro em 2025. Este movimento não apenas diversifica o portfólio da CMOC no Brasil, como também consolida sua posição como um player multifacetado e de grande envergadura no País, o que a capacita para continuar expandindo no País seja organicamente ou via outras aquisições.

A trajetória da CMOC no Brasil se iniciou em 2016, a partir de aquisições de peso, quando a Anglo American anunciou a venda de seus negócios de Nióbio e Fosfatos no Brasil para a companhia, em uma transação de grande relevância, avaliada em US$ 1,5 bilhão. A transação incluiu complexos verticalizados de operações de fosfatos e nióbio, compreendendo minas, plantas de processamento, complexos químicos e depósitos minerais adicionais localizados nos estados de Goiás e São Paulo. Este negócio foi um passo estratégico para a Anglo American reduzir sua dívida, mas representou uma significativa consolidação da CMOC em minerais essenciais no Brasil.

Outra incursão relevante de empresas Chinesas no Brasil foi a aquisição da Mineração Taboca do grupo peruano Minsur pela CNMC (China Nonferrous Mining Metal Company), em um acordo de US$ 340 milhões, anunciado em 26 de novembro de 2024. A Mineração Taboca é o principal produtor brasileiro de estanho, operando a mina Pitinga no Amazonas, onde também produz tântalo e nióbio. A CNMC, com operações de metais não-ferrosos na Ásia e África, demonstra, com essa aquisição, um claro interesse em ativos estratégicos para a indústria de alta tecnologia. Os desafios enfrentados pela Mineração Taboca em 2023, como a redução da receita e geração de caixa devido a problemas logísticos no transporte fluvial, podem ter influenciado o contexto dessa venda, embora a empresa continue sendo um player de destaque em termos de produção.

No setor de cobre, a chinesa Baiyin Nonferrous assumiu o controle da Mineração Vale Verde (MVV) em 2025. A companhia adquiriu o ativo do grupo Appian Capital Brazil, por um valor estimado de cerca de US$ 500 milhões. A MVV opera a mina Serrote, em Craíbas, Alagoas, com capacidade para produzir 20 mil toneladas anuais de cobre contido em concentrado. A mina, que iniciou operações em 2020 e atingiu seu ramp up em 2022, possui reservas substanciais e alta produtividade, tendo operado a 105% de sua capacidade em 2024. Essa aquisição reforça o interesse chinês em metais básicos e estratégicos para suas crescentes demandas industriais.

A ausência de grupos brasileiros: um reflexo do custo de capital

Diante dessa efervescência de aquisições por parte de empresas chinesas, surge uma questão inquietante: por que grupos brasileiros não estão na linha de frente dessas transações? Afinal, quem conhece melhor o Brasil do que os próprios Brasileiros? A resposta é multifacetada, mas um dos pilares centrais reside nas dificuldades de financiamento e no alto custo de capital no Brasil, especialmente quando comparado à realidade chinesa, um tema que temos reiterado há muito tempo.

O setor de mineração é intensivo em capital, exigindo investimentos maciços em prospecção, desenvolvimento de minas, infraestrutura, equipamentos e tecnologia. As cifras envolvidas nas transações acima – US$ 340 milhões, US$ 500 milhões, US$ 1,0 bilhão, US$ 1.5 bilhão – demonstram a escala de capital necessária para competir neste jogo.

No Brasil, o ambiente macroeconômico, caracterizado frequentemente por taxas de juros elevadas, inflação e volatilidade cambial, torna o acesso a crédito para projetos de longo prazo e grande porte extremamente caro. Bancos e instituições financeiras nacionais, em grande parte, oferecem linhas de crédito com custos proibitivos para a escala que o setor mineral demanda, ou exigem garantias que os grupos brasileiros não conseguem facilmente prover. Soma-se a isso o fato de que, embora em evolução, o mercado de capitais doméstico ainda carece de profundidade e apetite ao risco para financiar megaprojetos de mineração com a mesma agilidade e competitividade observadas em mercados globais.

Por outro lado, empresas chinesas costumam contar com o suporte de bancos estatais chineses ou acesso a capital a custos substancialmente mais baixos, seja por meio de linhas de crédito subsidiadas, acesso a mercados de capitais mais maduros ou estratégias de investimento de longo prazo que não são puramente pautadas pela rentabilidade imediata, mas por objetivos estratégicos maiores e alinhados com políticas de industrialização nacional para a garantia de suprimentos de matérias-primas essenciais para sua indústria. Essa disparidade no custo de capital e a inexistência de uma estratégia nacional consistente, colocam as empresas brasileiras em desvantagem competitiva significativa.

A estratégia governamental e a fragilização de empresários nacionais

A conjuntura se agrava quando consideramos a percepção de que a estratégia ou as políticas econômicas adotadas pelo governo e Congresso no Brasil reiteradamente fragilizam os empresários nacionais. Não se trata necessariamente de uma intenção deliberada de enfraquecer o capital brasileiro, mas sim do efeito acumulado de um ambiente regulatório e tributário complexo, imprevisível e inconstante, aliado a uma política fiscal e monetária que não prioriza a competitividade do capital nacional. Vejamos o setor de fertilizantes, por exemplo, um ativo necessário onde brasileiros produtores pagam impostos que são desonerados nas importações.

Um sistema tributário oneroso e com frequentes alterações, por exemplo, aumenta a incerteza e o custo de fazer negócios no Brasil. Leis ambientais, embora essenciais, quando implementadas com burocracia excessiva ou falta de clareza, podem atrasar ou encarecer projetos, desincentivando investimentos nacionais. A falta de uma política industrial de longo prazo e de apoio específico para setores estratégicos como a mineração, que poderia fomentar a criação de competidores nacionais ou facilitar o acesso a financiamentos competitivos, deixa o campo aberto para players estrangeiros.

Adicionalmente, a política monetária Brasileira, ao buscar controlar a inflação por meio de juros elevados, encarece o custo do capital para todas as empresas, mas o impacto é desproporcional para aquelas empresas que não possuem o mesmo acesso a fontes de financiamento globais ou estatais, disponíveis às companhias chinesas. A ausência de um mecanismo robusto, como por exemplo uso de incentivos fiscais, que equalize as condições de acesso a capital entre empresas nacionais e estrangeiras, acaba por tornar os ativos brasileiros mais atraentes para quem tem acesso a capital barato, e menos viáveis para quem não tem.

Essas condições criam um cenário em que o empresário brasileiro, apesar do conhecimento profundo e da experiência no ambiente local, acaba em desvantagem estrutural, justamente em um momento crítico de reposicionamento geopolítico e disputa global pelo controle de minerais estratégicos. A dificuldade de captar recursos a taxas competitivas, aliada a um ambiente de negócios desafiador, empurra a venda de ativos valiosos para investidores estrangeiros, que enxergam no Brasil não apenas a abundância mineral, mas também oportunidades de aquisição alinhadas às suas capacidades de financiamento muito mais favoráveis.

Repensando a soberania mineral e competitividade

A “investida chinesa” no setor mineral brasileiro é um movimento econômico relevante e bem-vindo, impulsionado tanto pela demanda chinesa por matérias-primas quanto pela capacidade financeira de suas empresas. Embora esses investimentos tragam capital, tecnologia e empregos, eles também suscitam questões fundamentais sobre a capacidade do Brasil de preservar e fortalecer um capital nacional forte em um setor tão estratégico.

O governo deveria ouvir seus empresários e empreendedores, para reverter essa tendência e fortalecer a posição dos brasileiros. É imperativo que o País adote políticas que busquem reduzir o custo de capital, simplificar o ambiente regulatório e tributário, e oferecer mecanismos de financiamento mais acessíveis, realistas e competitivos para empresas nacionais. É fundamental que haja um debate aprofundado entre governo, congresso e setor produtivo sobre como criar um ecossistema que não apenas atraia investimento externo, mas que também capacite e fortaleça os grupos brasileiros a competir em pé de igualdade, garantindo assim uma maior soberania mineral e distribuição de valor na exploração de suas riquezas naturais. O futuro do setor mineral brasileiro, e em grande parte, da sua economia, dependerá da capacidade do País em equilibrar a atração de capital estrangeiro com a promoção do desenvolvimento e da competitividade do seu próprio capital.

Que fique claro: rejeitamos o protecionismo e a adoção de barreiras que isolam a economia e reduzem a competitividade. Afinal de contas, projetos em operação valem muito mais do que projetos no papel. Defendemos atrair investimento estrangeiro ancorado em segurança jurídica, estabilidade regulatória e um ambiente de negócios previsível, sempre preservando, de forma inegociável, a soberania nacional. Ao mesmo tempo, propomos a adoção de medidas concretas de apoio às empresas brasileiras -incentivos tributários e regulatórios, crédito competitivo e de longo prazo, estímulo à inovação e à produtividade, promoção comercial e melhoria da infraestrutura – assegurando que a abertura econômica se converta em mais empregos, renda e fortalecimento das cadeias produtivas nacionais.

Por Luis Azevedo é Geólogo, Advogado, empresário, Presidente da ABPM e Membro do Conselho de Mineração- COMIN da CNI e da FIRJAN).

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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