A vida, um sopro

“A vida é um momento. É um sopro. E a gente só leva daqui o amor que deu e recebeu. A alegria, o carinho e mais nada…”

É dessa forma que encaro a tragédia ocorrida com o avião que levava o time da Chapecoense, tripulantes e jornalistas. Algo parece surreal, metafísico, além de qualquer entendimento humano, terrestre. Qual justificativa para o ocorrido? Faltavam 30 quilômetros… Apenas 30 quilômetros para o aeroporto José Maria Cordova, de Medellín. Cinco minutos de voo.

As grandes tragédias sempre têm explicação. E a da queda do voo da Chapecoense não seria diferente. Depois do choque, do trauma, vem a análise fria do maior acidente envolvendo uma delegação esportiva da história. Nunca o mundo acompanhou tantos mortos em uma tragédia. Setenta e uma pessoas perderam a vida na queda de mais de quatro mil, setecentos e noventa e três metros. Foi um milagre ter havido seis sobreviventes, se apressaram a dizer os mais ansiosos.

Mas não é esta a análise de Carlos Camacho, um dos maiores especialistas em aviação no país. Com cerca de quarenta anos de experiência em voos, primeiro como piloto comercial e depois como analista de segurança, Camacho tem sido a voz mais firme, a mais crítica em relação à tragédia. Houve sobreviventes porque o avião estava sem combustível, só por isso não explodiu. Na visão de Camacho, a queda só aconteceu por erros primários. A aeronave deixou de ser fabricada em 2001. Motivo? Alto consumo de combustível. As primeiras investigações apontam que houve pane seca (falta de combustível) por uma decisão do piloto, um dos donos da aeronave e que queria economizar no custo da viagem. Por isso seguiu até Medelín no limite do combustível.

O futebol que normalmente é razão de alegria, festeja a vida desta vez provoca comoção com a morte. A Chapecoense conseguiu mobilizar o país para a decisão inédita. Ocuparia, com orgulho, o papel de David contra Golias. O clube é um fenômeno de competência administrativa, gestão, trabalho sério em um mundo marcado por dirigentes irresponsáveis, corruptos, aproveitadores.

O clube é novíssimo em relação aos grandes do futebol brasileiro. Foi fundado em 1973. Se chama Associação Chapecoense de Futebol porque juntou os principais times amadores. Todos iriam representar a cidade, a região Oeste de Santa Catarina. Com o apoio da prefeitura e das empresas da cidade, o crescimento do time foi impressionante. Conseguiu cinco campeonatos catarinenses.

A arrancada nacional começou em 2009 quando subiu para a Série C. Em 2012, chegou à B. Em 2013, à Série A. E nunca voltou a ser rebaixada. A aposta séria na categoria de base, investimentos certeiros e a paixão da população de Chapecó fizeram com que o time crescesse de maneira incrível.

Deveria. O sonho acabou. Apenas o lateral Alan Ruschel, o zagueiro Neto e o goleiro Follmann sobreviveram. Caio Júnior e seus bravos jogadores morreram. Danilo, Gimenez, Bruno Rangel, Marcelo, Lucas Gomes,Sergio Manoel, Filipe Machado, Matheus Biteco, Cleber Santana, William Thiego,Tiaguinho, Josimar, Dener, Gil, Ananias, Kempes, Arthur Maia, Mateus Caramelo, Aílton Canela.

Além deles, jornalistas e comentaristas também fazem parte dessa tragédia. Guilherme Marques, Ari de Araújo Jr., Guilherme Laars, Giovane Klein Victória, Bruno Mauri da Silva, Djalma Araújo Neto, André Podiacki, Laion Espíndola. Victorino Chermont, Rodrigo Santana Gonçalves, o Deva Pascovicci, Lilacio Pereira Jr, Paulo Júlio Clement. Mário Sérgio. Renan Agnolin, Fernando Schardong, Edson Ebeliny, Gelson Galiotto, Douglas Dorneles, Jacir Biavatti.

Morreram fazendo o que mais amavam, cobrir futebol. O único sobrevivente na imprensa esportiva é o repórter Rafael Henzel. Na tripulação, a comissária Ximena Suarez se salvou. O buraco que fica na alma do futebol brasileiro não será fechado jamais. A tragédia foi terrível. Futebol nunca foi sinônimo de morte. Chapecó declarou luto de 30 dias. Não haverá festividades. Natal… Réveillon… São 71 mortos. Tudo perdeu o sentido. A queda do avião atingiu a alma da cidade. De Santa Catarina. Do Brasil. Do mundo. O futebol não merecia essa tragédia. A vida é um sopro… Faltavam 30 quilômetros. Apenas cinco minutos de voo…

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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