Brasil: o sorvete que derrete

Confesso que sou amante de sorvete. Assim como o excelentíssimo senhor presidente da República, Michel Temer. Mas, por questões econômicas óbvias, nossos gostos e qualidades do referido produto nunca poderiam se misturar. Diferente de nosso mandatário nacional, sorvete para mim até os meus 18 anos era artigo de luxo, um supérfluo que só tinha o prazer de ter acesso em datas esporádicas, em ocasiões raras ou quando me era oferecido por alguém.

Morando em Belém, os sorvetes que tomava eram aqueles de bairro, feitos de forma artesanal, de maneira rústica. Era comum o chamado “chopp” e que muitos chamam também de “geladinho”. Eram os mais baratos e de fácil acesso. Quando eram feitos pela mãe de um amigo, então se conseguia gratuitamente, bastava fazer aquela carinha de menino triste, que se ganhava um.

 Depois com a renda melhorando, já tinha acesso aos famosos sorvetes da Cairu. São considerados os melhores de Belém. Os pontos de vendas tornaram-se encontros turísticos, especialmente para a degustação dos famosos sabores regionais, que fazem os visitantes sussurrarem baixinho ao provarem a iguaria local.

Hoje, tomo quase um litro de sorvete por semana. A psicologia me explica que, o abuso de hoje é justificado pelo longo período de vontade reprimida. Pelo menos, uso isso como desculpa para a overdose de sorvete que constantemente me submeto. Até anteontem nunca tinha ouvido falar de sorvete da marca “Haagen-Dazs”. Pois bem, Temer fez o favor de me apresentar.  Marca fina, chique, importada, que abasteceria o avião presidencial.

O valor da licitação R$ 1,75 milhão. Os custos para se “refrescar”: R$ 7500 em gelados da Häagen-Dazs — 500 potes de 100 gramas, R$ 15,09 cada um. Em meio a grave crise econômica, com a postura do próprio governo de cortar gastos, a regalia presidencial não seria algo relevante, talvez, para as contas públicas. Talvez, passasse despercebida, mesmo com o processo licitatório em caráter público. Como de costume, com o caso tomando contornos públicos, Temer mandou cancelar. Só depois….

A Häagen-Dazs não é dinamarquesa, alemã ou sueca. É do Bronx, bairro de Nova York. Reuben Mattus fundou o negócio com a mulher Rose na década de 60. A empresa começou com três sabores: baunilha, chocolate e café. Mattus inventou o título porque achava que ele transmitia uma “aura das tradições do Velho Mundo”, segundo o site oficial.

Ele acrescentou o trema, acento que não existe na língua dinamarquesa. As embalagens originais continham um mapa da Dinamarca para dar a impressão de que o produto era europeu.

Portanto, qualquer semelhança entre a referida marca de sorvete e o presidente é mera coincidência do acaso. Ambos se apresentam de uma forma que verdadeiramente não são. Fingem, ambos, serem o que na essência do processo não passa de uma “maquiagem”, com intuito de enganar. São falsos. Assim nasceu a Häagen-Dazs e da mesma forma se apresenta Michel Temer.

E agora, como ficará presidente sem seu sorvete importado? Isso é maldade. Pura atitude mesquinha da sociedade e mídia. O que é um pote de sorvete frente a uma crise econômica mundial? Eu, por exemplo, posso doar ao mandatário nacional o meu pote, da marca “Geerrê”. Parece francês, mas só se utiliza da grafia daquele país, sendo genuinamente tupiniquim. É gostoso, especialmente os de Flocos e Brigadeiro. Temer tomaria o meu “Geerrê tupiniquim”? Ou não seria digno a ele?

Independente de tipo ou marca de sorvete, o Brasil afunda nas graves crises política e econômica. De Häagen-Dazs a Geerrê estamos retrocedendo. O sorvete derrete independente da marca…

 

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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