Enfim, a verticalização mineral?!

Desde ontem, 24, uma notícia vem tendo bastante repercussão nas redes sociais. O governador Helder Barbalho (MDB) anunciou em uma de suas contas, a concessão da Licença de Instalação (LI) para que a Tecnored, empresa que atua no ramo siderúrgico, com diferencial de utilizar práticas sustentáveis, iniciasse a construção de sua planta industrial em Marabá.

Segundo informações sobre o citado projeto, a mineradora Vale (uma das maiores acionistas da Tecnored) irá ser a executora, que comtemplará um laboratório de desenvolvimento e processamento de biomassa, que vai permitir a produção de 500 mil toneladas de ferro-gusa, com baixa emissão de carbono (a grande vitrine da empresa de Pindamonhangaba, interior de São Paulo).

Em seu anúncio, Helder destacou que a Tecnored pratica o que se chama hoje de “gusa verde” (denominação utilizada com frequência para distinguir e caracterizar o ferro-gusa produzido com carvão vegetal originário de florestas plantadas e renováveis, em relação ao produzido com coque de carvão mineral). Barbalho espera que no pico da obra, sejam gerados algo em torno de dois mil empregos diretos, além de criar uma prática sustentável, algo que prometeu recentemente na COP-26.

Em maio de 2019, poucos meses após ter assumido o governo do Pará, Helder Barbalho assinou protocolo de intenções sobre a possibilidade de verticalização da cadeia de produção de ferro no Pará, um sonho antigo dos paraenses. A proposta tinha como objetivo o investimento na implantação da usina de laminação de aço ao custo de US$ 450 milhões, que teria como parceiros as empresas Vale e China Communication Constrution Company (CCCC), controladora da brasileira Concremat. Segundo o anúncio à época, a Vale e CCCC deveriam apresentar até o fim do ano passado o projeto e o licenciamento completos, o que não aconteceu. As obras – pelo cronograma original deveriam ter começado em 2021 e o projeto em pleno funcionamento a partir de 2022.

O caso Alpa

Quando o assunto é a verticalização mineral, não há como não citar o processo da ALPA (Aços e Laminados do Pará), que prometia ser uma gigantesca siderúrgica, localizada em Marabá. O ano era 2008, quando os governos federal e estadual do Pará anunciaram o projeto junto com a mineradora Vale a um custo, à época, de R$ 5 bilhões. Alpa alimentou o sonho das milhares de pessoas que residem no sul e sudeste paraense, especialmente os habitantes de Marabá que viam na obra, a esperança de dinamizar a economia daquele município e de toda a região. O projeto nunca saiu do papel. Até hoje a placa de anúncio das obras se mantém no local.

A tão esperada verticalização mineral do Pará é muito mais do que uma mudança no parâmetro de produção, representa a quebra da lógica perversa do modelo de desenvolvimento pensado e imposto para a Amazônia desde a década de 1980. A tão sonhada e esperada verticalização mineral ficará – mais uma vez – na retórica? Até quando continuaremos a exportar minério em seu estado bruto, sem agregar valor e ainda penalizados pela Lei Kandir? Até quando iremos manter o modelo de desenvolvimento colonial que concentra riqueza e deixa gigantesco lastro de pobreza por onde passa?

Que o anúncio do governador Helder Barbalho de fato se concretize. Agregar valor a uma matéria-prima de baixo valor comercial, como o ferro, sem dúvida, irá gerar um efeito desenvolvimentista ao ser verticalizado. Os amazônidas não aguentam mais esperar.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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