Escolhido para perder?

Por mais estranho que possa parecer, sobretudo aos que acompanham a política de longe, escolhe-se sim um nome para ser derrotado. Tal situação não é algo de “outro mundo” ou raro de ocorrer. E se faz isso (especialmente quem escolhe), justamente para que se possa voltar para uma nova disputa, por conta disso, prefere-se que, por exemplo, um determinado grupo rival vença.

Seria leviano afirmar que, em 2018, o então governador Simão Jatene optou pelo deputado estadual Márcio Miranda (DEM), um nome de fora de seu partido, para que o projeto saísse derrotado? Teria feito isso para que, quatro anos depois, em 2022, voltasse a disputar o governo do Pará? Claro que tal afirmação gira no campo da especulação. Mas faz sentido para os que acompanham o ex-governador. Miranda perdeu.

A título de exemplo, em 2006, o ex-governador Almir Gabriel resolveu após dois mandatos (1994-2002), além de ter feito o sucessor, justamente o então desconhecido sob o ponto de vista eleitoral, Simão Jatene, então secretário de governo; disputar novamente o governo. Gabriel morreu anos depois sem falar com Jatene, pois o acusava de ter feito “corpo-mole” na eleição daquele ano, o fazendo perder para a então petista Ana Júlia, mesmo com a máquina estadual controlada por seu partido.

Toda essa análise é para chegar ao ponto central deste artigo. A escolha feita pelo prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB), que definiu o nome do deputado estadual Thiago Araújo (Cidadania), teria como objetivo ser derrotado?

Conforme analisado em diversos artigos sobre a disputa eleitoral na capital paraense, Coutinho não estava propenso a optar por um nome de dentro do ninho tucano. Estava mais do que claro que, a exemplo de 2018, o escolhido seria componente de algum partido da base. O favorito era o deputado federal Cássio Andrade (PSB).

Pois bem, o Blog fez rápido levantamento sobre a trajetória política do jovem Thiago Araújo. Apesar da pouca idade (27 anos), já está em seu terceiro mandato parlamentar. Estreou na política em 2012, quando disputou pela primeira vez uma cadeira a Câmara de Vereadores de Belém, conseguindo ser o 10º mais bem votado (7.895). Dois anos depois, se lançou como candidato a deputado estadual, e mais uma vez conseguiu ser eleito. Com pouco mais de 38 mil indicações nas urnas, o que lhe fez ser o 29º que mais recebeu votos. Sua reeleição foi algo que chamou a atenção, sendo o 8º candidato mais votado, em 2018, com 54.933 votos.

Portanto, Araújo é um político em ascensão. Sua musculatura política cresce a cada nova disputa eleitoral. A questão é: tal desempenho foi o que fez o prefeito Zenaldo Coutinho ter o escolhido? Sabe-se que há uma grande diferença entre disputas eleitorais majoritárias e proporcionais. O eleitor belenense terá confiança em votar em um candidato tão novo? Araújo está a altura de gerir uma metrópole tão problemática como a capital paraense? Ou foi escolhido pelo prefeito Zenaldo Coutinho para perder? Ou por representar menos risco de vitória? Forçar a derrota teria lógica?

Mas caso Coutinho tenha apostado em Araújo para vencer, qual a justificativa para a escolha? Seria em nome de um processo de renovação, tendo como base a pouca idade do escolhido? Thiago reuniria competências e habilidades que desconhecemos?

De toda a forma, em política se escolhe para perder. Ainda mais quando os interesses futuros de quem escolhe, estão em jogo. A ver.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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