O direito em parar

Em dezembro de 2016, escrevi uma crônica sobre o direito ou não de uma pessoa parar profissionalmente. À época, tomei como base a decisão do então campeão mundial de Formula 1, Nico Rosberg, da equipe Mercedes, que após uma semana da conquista do título, anunciou a sua aposentadoria das pistas. O que fez, naquele momento, levar um piloto que chegou ao topo da carreira automobilística mundial, aos 31 anos, encerrar a carreira, ainda com possibilidades de ganhar outros campeonatos?

Rosberg explicou o motivo de sua decisão: “desde a infância eu tinha três sonhos: ser piloto, ganhar o grande prêmio de Mônaco e ser campeão mundial”. De fato, ele conseguiu os três. Disse ainda que “chegou ao topo da montanha”. O que lhe fez parecer que nada mais faria sentido dentro do mundo da F1, talvez, por isso, parar e cuidar da família. Uma decisão que é considerada “fora da curva”, incomum.

Todavia, o fato que fomentou a produção desta crônica é mais recente. Diz respeito ao anúncio da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, feito na quinta-feira (19) – ainda noite de quarta-feira (18) no Brasil – em que não irá se candidatar à reeleição e que deverá renunciar até o começo de fevereiro. Ela afirmou que já não tem mais combustível para seguir na carreira. A política de 42 anos disse que o tempo em que ela esteve no cargo (quase seis anos) foram desafiadores e cobraram um preço (segundo matéria do Portal G1).

E completou: “Eu sei que haverá muita discussão após esta decisão sobre qual foi o chamado motivo ‘real’. O único ângulo interessante que você encontrará é que, depois de enfrentar seis anos de grandes desafios, eu sou humana. Os políticos são humanos. Damos tudo o que podemos, pelo tempo que pudermos, e então é a hora. E, para mim, é a hora”.

Ardern deixou claro que já não tem mais combustível para seguir na carreira. A política de 42 anos disse que o tempo em que ela esteve no cargo (quase seis anos) foram desafiadores e cobraram um preço.

Pandemia do novo Coronavírus 

O país de 5 milhões de habitantes registrou desde o início da pandemia apenas 26 mortes e 2,6 mil casos. Além do fechamento de fronteiras, também foi feito quarentena rigorosa logo no início da pandemia, testagem em massa e rastreamento dos cidadãos. Esta última ferramenta ajudou a localizar, por exemplo, por quais lugares uma pessoa contaminada passou e com quais outras teve contato. Essa estratégia também foi realizada por meio de um aplicativo, no qual os neozelandeses registravam, através de um QR Code, os lugares visitados.

Bem como em outros países, o governo neozelandês estabeleceu quatro estágios para controle da pandemia, que vai do nível um, quando a doença está contida, até o nível quatro, de máximo alerta e maiores restrições, como lockdown. Hoje, a única medida obrigatória é o uso de máscaras em alguns espaços e o fechamento de fronteiras.

A gestão da pandemia também levou os números da economia do país a reagirem rapidamente. Em dezembro de 2020, o ministro da Economia, Grant Robertson, declarou que a Nova Zelândia havia se recuperado dos impactos econômicos, com um crescimento recorde trimestral de 14% entre julho e setembro.

A renúncia de Jacinda Ardern foi uma grande surpresa ao mundo. Uma política no auge de sua popularidade e com grande reconhecimento mundial, resolveu deixar o cargo mais importante de seu país. Todavia, ela levanta uma grande discussão sobre as nossas escolhas ou decisões em relação às atividades profissionais. E nós, aonde queremos chegar? Quando ou quanto tempo falta para se chegar ao “topo da montanha”? Quando iremos parar? Qual o limite do sonho de cada um? Ou sempre vamos além dos sonhos sem nos dar conta disso, pelo cultivo de um perfil cada vez mais competitivo, muitas das vezes desde a infância? Ou se paramos “antes da hora” seremos taxados como derrotados, medrosos ou incompetentes?

A sociedade cada vez mais nos cobra resultados, números, desempenhos, etc. Nem nós mesmos sabemos até aonde ir, qual o limite, ou o que ainda queremos? Estamos perdendo o direito de parar, de decidir sobre o futuro, a vida pessoal. O trabalho, as obrigações contratuais estão tomando conta da vida das pessoas.

Jacinda Ardern, sem dúvida, nos deu um exemplo, no mínimo, instigante. Sua atitude fomenta o debate do que vale realmente a pena e do que é secundário ou de menor importância a cada um. Não podemos perder o direito de parar. É uma escolha pessoal e deve ser respeitada, independente de que a toma.

Imagem: reprodução Internet. 

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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