O modelo Trump de polícia global e o impasse brasileiro

A captura de Nicolás Maduro, orquestrada por Donald Trump, foi rapidamente catalogada por muitos analistas como mais um espasmo de loucura imperialista ou uma violação grosseira do direito internacional. Ambas as leituras, embora factualmente corretas, perdem um pontoessencial. O ato foi a inauguração de um método. Ao trazer o líder venezuelano algemado para solo americano, Trump consolidou o que se pode chamar de “modelo paleoconservador de projeção de poder”. Entender essa engrenagem é vital para compreender a guinada de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciada em 2025, e o motivo pela qual talvez seja a única barreira real contra o retorno da extrema-direita em 2026.

Diferente dos neoconservadores desde a era Bush, que invadiam países sob o pretexto messiânico de “exportar a democracia”, o novo trumpismo opera sob uma lógica estritamente transacional. É uma operação de polícia global – efetivada pelo Departamento de Justiça – voltada inteiramente para o consumo interno. Não há promessa de “construção de nações”, apenas a exibição de força bruta,garantia de petróleo barato para o consumidor americano e suposta solução dos problemas domésticos de violência decorrente do tráfico de drogas. É a soberania performática: humilhar o inimigo externo para saciar o ressentimento doméstico, sem arriscar a vida de soldados americanos e sem os demais custos das guerras, que tanto têm cansado o eleitor norte-americano.

Essa criação de Trump reforça a performance de sucesso da extrema-direita e coloca um desafio existencial para os setores democráticos globais. Como apontam Thomas Piketty e Matthew Karp, o Partido Democrata norte-americano tornou-se refém de uma elite intelectualizada, mas desconectadas das aflições materiais das camadas populares, vitimadas pela desindustrialização. Ao transformarem as eleições em um plebiscito sobre democracia versus autoritarismo, os democratas, inadvertidamente, entregaram o monopólio da contestação – e da proteção econômica – à extrema direita.

O Brasil caminhava para esse mesmo cenário. Até o final de 2024, o terceiro governo Lula parecia preso ao que o cientista político André Singer diagnosticou como um “lulismo engessado”. Constrangido pela necessidade de manter a estabilidade institucional e fiscal, o governo corria o risco de chegar a 2026 como o fiador de uma ordem estagnada, flertando com o destino de Joe Biden: ser o guardião das instituições enquanto a oposição captura a imaginação popular.

No entanto, a virada de 2025 sugere que o Planalto compreendeu o risco. Ao reagir às tarifas norte-americanascom altivez e pragmatismo, e ao encampanar a campanha pela isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, lula operou um movimento clássico da Virtù maquiavélica. Ele percebeu a tempo que não poderia ser o “Biden dos Trópicos”.

Esse movimento recolocou o conflito distributivo no centro da agenda nacional. Em vez de aceitar uma eleição pautada apenas pela guerra cultural – terreno onde o bolsonarismo leva vantagem –, o governo levou o debate para a soberania concreta: a capacidade do Estado proteger a renda e o emprego diante de um mundo em desglobalização.

Contudo, impasses estruturais permanecem. A tensão entre a agenda de soberania popular e as pressões por austeridade fiscal é evidente, assim como a força autônoma do Congresso. Nesse vácuo, a extrema direita, inspirada pelo êxito de Trump e Nagyib Bukele, aposta que a demanda por ordem será saciada pelo espetáculo policial, e não pela inclusão econômica.

Assim, as eleições brasileiras tendem a opor duas visões de soberania: a punitiva e a material. A lição vinda do Norte sugere que, quando a política se limita à defesa do status quo, o eleitorado opta pelo incêndio. Se a busca por segurança material for bloqueada por travas fiscais ou políticas, o Brasil poderá vivenciar um amargo déjà vugeopolítico: a importação da crise dos democratas americanos e a repetição da dinâmica interna que, entre 2016 e 2018, gestou o imponderável.

Por Marina Basso Lacerda

Imagem: Daniel Torok/Casa Branca

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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