Enquanto pesquisas apontam cansaço da população com extremismos,
pré-campanhas para 2026 seguem investindo em discursos radicalizados.
Levantamento do Datafolha de dezembro de 2025 revela que 74% dos brasileiros consideram o país “muito polarizado” ou “extremamente polarizado”, com 68% declarando estar “cansados” do clima de confronto político permanente. Paradoxalmente, as pré-campanhas presidenciais para 2026 seguem apostando em discursos cada vez mais radicalizados, aprofundando divisões entre esquerda e direita, progressistas e conservadores, liberais e estatistas.
A aparente contradição entre o desejo expresso nas pesquisas e as estratégias adotadas pelas campanhas levanta uma questão central: a polarização ainda funciona como combustível eleitoral ou se tornou uma armadilha que afasta o eleitor médio?
Polarização brasileira
Além dos dados do Datafolha, pesquisa Ipec de novembro de 2025 mostrou que 61% dos eleitores gostariam de ver “candidatos que unifiquem o país” em vez de “líderes que defendam seus valores com firmeza” (32%). O levantamento também identificou que 54% dos brasileiros evitam discutir política em ambientes familiares e de trabalho para “não criar conflito”.
Um estudo do InternetLab sobre comunicação política digital, divulgado em outubro de 2025, demonstra a migração crescente de debates políticos do espaço público das redes sociais para grupos privados de WhatsApp e Telegram, onde a polarização se intensifica em “bolhas” cada vez mais herméticas. Segundo o relatório, 78% dos usuários brasileiros de WhatsApp fazem parte de pelo menos um grupo de conteúdo político, e 83% desses grupos são “ideologicamente homogêneos”, com pouca ou nenhuma diversidade de opiniões.
Estratégia
Para o publicitário e estrategista político Diego Pereira, que atua em campanhas da direita no Pará e coordenou a campanha do deputado Delegado Éder Mauro (PL) na disputa pela prefeitura de Belém em 2024, a polarização não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade estrutural da política contemporânea.
“Político que reclama da polarização é porque não consegue polarizar. Esquerda e direita, progressistas e conservadores, liberais e estatistas, essa divisão não existe por acaso. Existe porque mobiliza, engaja, convence. E no final do dia, política é sobre convencer
gente. Ou você joga esse jogo, ou fica assistindo de fora”, afirma Pereira.
Para o estrategista, a polarização cumpre funções essenciais na disputa eleitoral: “Polarização cria identidade. Identidade cria pertencimento. Pertencimento cria lealdade. Não estamos falando de uma tática passageira, estamos falando da mecânica fundamental da política moderna. Candidatos que tentam ficar no meio do caminho achando que vão agradar todo mundo geralmente não agradam ninguém”.
Polarização como risco democrático
O cientista político Nilson Cortinhas apresenta uma visão oposta. Para ele, a polarização extrema representa não apenas uma estratégia arriscada eleitoralmente, mas um perigo concreto para a estabilidade democrática brasileira.
“Existe uma diferença fundamental entre competição política saudável e polarização destrutiva. O que estamos vendo no Brasil ultrapassa em muito o debate legítimo de projetos de país e entra no campo da desumanização do adversário, da impossibilidade de diálogo e da destruição das instituições. Isso não é apenas ineficiente eleitoralmente para quem busca governabilidade, é perigoso para a democracia como um todo”, alerta Cortinhas.
O cientista político aponta que os dados de pesquisa não devem ser ignorados pelos estrategistas. “Quando 74% da população diz que o país está muito polarizado e 68% expressa cansaço, isso não é um detalhe. É um sinal claro de que a sociedade está pedindo outra forma de fazer política. Ignorar isso apostando que ‘na hora da urna é diferente’ pode funcionar uma, duas vezes, mas cria um ciclo vicioso que corrói a confiança nas instituições e na própria democracia”.
Cortinhas também questiona a sustentabilidade da estratégia a longo prazo. “Governos eleitos pela polarização extrema chegam ao poder sem capital político para construir consensos, sem capacidade de diálogo com o Congresso, sem pontes com setores da sociedade. O resultado é frustração e a preparação do terreno para uma polarização ainda mais intensa no ciclo seguinte. É uma espiral decadente”.
Propostas concretas
Pesquisas qualitativas realizadas pelo Ibope em grupos focais durante 2025 identificaram um “cansaço emocional” significativo entre eleitores de diferentes espectros ideológicos, com muitos descrevendo a política atual como “briga de torcida organizada” que “não resolve nada na prática”.
Segundo análise da Fundação Getúlio Vargas, eleições sucessivas baseadas em polarização extrema tendem a produzir governos com baixa capacidade de construir consensos legislativos, resultando em paralisia institucional e frustração popular crescente.
Para Nilson Cortinhas, o caminho alternativo existe e pode ser eleitoralmente viável: “Não estou defendendo uma falsa neutralidade. Estou falando de candidatos que tenham posições claras, projetos definidos, mas que se comuniquem sem demonizar metade do país. A história recente mostra que em contextos de polarização extrema, candidatos que oferecem uma saída pragmática, que falam de problemas concretos e soluções viáveis, podem surpreender”.
Teste decisivo
As eleições presidenciais de 2026 representarão um teste definitivo entre essas duas visões antagônicas sobre o futuro da política brasileira. Com pré-candidatos de diferentes espectros já adotando discursos radicalizados, o pleito determinará se a população efetivamente “compra” a proposta de confronto ou se premiará alternativas que ofereçam síntese e propostas concretas.
Para Diego Pereira, a resposta está menos na intenção declarada e mais no comportamento real dos eleitores: “Pesquisas captam o que as pessoas gostariam de sentir, não necessariamente como elas agem na urna. Quando chega a hora de votar, a identidade política pesa mais que o cansaço com a polarização. É isso que as pesquisas não têm conseguido captar e os resultados eleitorais têm mostrado sistematicamente”.
Já Nilson Cortinhas acredita que 2026 pode ser um ponto chave. “Se houver uma candidatura competitiva que consiga oferecer um projeto de país sério sem recorrer à polarização destrutiva, sem transformar a eleição em guerra de torcidas, essa candidatura pode capturar um eleitorado enorme que está órfão”.
Imagem: fotomontagem


