A arte de abandonar aliados

Na última sexta-feira (20), Brasília ficou agitada por conta do ato do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), de enviar para ser protocolado no Senado Federal, o pedido de impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.

O documento de 102 páginas lista o que considera uma série de irregularidades cometidas pelo ministro do STF e pede sua destituição do cargo por crime de responsabilidade. Além disso, quer que lhe seja aplicada a pena de oito anos de inabilitação a cargo público. A peça de Bolsonaro se baseia em dois argumentos principais. Um é o de que o ministro decidiu em processos nos quais deveria ter se declarado suspeito. O artigo 39.2 da lei do impeachment (Lei 1.079/1950) prevê que é crime de responsabilidade de ministro do STF “proferir julgamento, quando, por lei, seja suspeito na causa”.

O outro argumento diz que Alexandre “procede de modo incompatível com a honra, dignidade e decoro de suas funções”, conduta prevista no artigo 39.5 da mesma lei. Isso porque o ministro estaria descumprindo o compromisso assumido quando sabatinado no Senado, ocasião em que manifestou-se pela defesa intransigente de direitos e garantias individuais.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG) afirmou em entrevista que o seu papel é receber o pedido, todavia, segundo ele, não há possibilidade alguma que o desejo de Bolsonaro prospere. Portanto, o pedido deverá ser arquivado.

Sob o ponto de vista político, a ação do Palácio do Planalto dificulta ainda mais um entendimento entre os Poderes, derrubando qualquer possibilidade de conciliação. Como já dito aqui inúmeras vezes, o presidente Bolsonaro não quer ou não tem interesse em buscar harmonia. O embate é o que mantém, por exemplo, a sua militância e apoiadores. Acordo em torno de um processo de pacificação com o STF, por exemplo, não faz sentido.

Abandono de aliados 

Desde quando chegou à cadeira presidencial, Jair Bolsonaro tem demonstrado uma característica que lhe é bastante peculiar: abandono de aliados sem maiores cerimônias. A lista dos abandonados é grande. Vai desde o falecido Gustavo Bebianno, então braço direito na campanha; passa por Luciano Bivar (presidente do PSL, ex-partido de Bolsonaro); Alexandre Frota; Joice Hasselmann; General Santos Cruz; Delegado Waldir; Wilson Witzel; João Doria; Paulo Marinho; Sérgio Moro e o finado Major Olímpio. Outros não necessariamente tornaram-se inimigos do presidente, mas foram abandonados por ele, como é o caso dos ex-ministros Ernesto de Araújo (Relações Exteriores) e Abraham Werintraub (Educação). Ambos reclamam do tratamento recebido após terem deixado o governo.

Pois bem, mais um nome deverá constar na lista dos abandonados por Bolsonaro: André Mendonça, ex-titular da Advocacia-Geral da União (AGU), que chegou a ser ministro da Justiça e Segurança Pública, após a saída de Moro. A relação entre Bolsonaro e Mendonça é ótima, e o auxiliar mostra toda a lealdade ao mandatário da nação. Então, por que o ex-AGU, pode constar na extensa lista de abandonados pelo presidente?

Tudo gira em torno do pedido de impeachment do ministro do STF, Alexandre de Moraes, protocolado no Senado Federal. Mendonça já foi indicado pelo presidente Bolsonaro para ocupar a vaga deixada por Marco Aurélio Mello, em julho passado, na Suprema Corte. O ex-ministro bolsonarista vinha em intensa agenda nos gabinetes dos senadores buscando apoio e os votos que precisa para chegar a Suprema Corte. Tudo caminhava bem, contava até com apoio de ministros do STF, como Gilmar Mendes. O STF teria em suas fileiras um ministro “terrivelmente evangélico”.

Só que os ventos a favor de Mendonça podem ter mudado. A decisão de Bolsonaro de pedir impeachment de ministros do STF (presidente prometeu ainda protocolar outro pedido, agora contra Luís Roberto Barroso), pode ter enterrado a indicação de André Mendonça ao STF, pois diversos senadores, dentre eles, Davi Alcolumbre, que era o principal interlocutor do indicado na Casa, não mostrou mais interesse em continuar a tratar da questão. Sendo assim, aumenta o risco do nome de Mendonça não passar, de não conseguir os mínimos 42 votos.

Jair Bolsonaro sabia que a sua atitude poderia causar mais esse desgaste e, de quebra, encerrar com a possibilidade de um fiel escudeiro chegar a Suprema Corte. Portanto, fez o ato sabendo disso. A situação de André Mendonça agora fica em risco. Mais um que, pelo visto, deverá ficar pelo caminho. Jair Bolsonaro só se importa com a sua prole. Abra o olho Augusto Aras.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

#veja mais

Parauapebas: edição especial do projeto “Câmara nos Bairros” será realizada no coração da cidade

A Câmara Municipal de Parauapebas (CMP) se prepara para realizar a maior edição do projeto “Câmara nos Bairros”, de 1 a 3 de dezembro, na

Meia década de Brumadinho. O que ficou de lição?

Passava alguns minutos das doze horas da sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, quando a barragem da Mina Córrego do Feijão rompeu e provocou uma

Cerca de 21 capitais devem ter ao menos um deputado federal nas disputas pelas prefeituras

Deputados e um senador buscam cacifar seus nomes para disputar o controle de cidades brasileiras nas eleições de 2024. Segundo levantamento do Congresso em Foco,

TSE propõe reunião com Telegram para discutir as Eleições 2022

No início desta terça-feira (22), o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Edson Fachin, enviou aos representantes do aplicativo Telegram novo ofício com convite

Pará lidera crescimento industrial no Brasil no primeiro quadrimestre de 2025

As indústrias do Pará registraram um crescimento de 10% no acumulado de janeiro a abril de 2025, em comparação com o mesmo período do ano

O ressentimento e o apoio “crítico”… Da Europa

Ciro Ferreira Gomes não figurou entre os dois mais bem votados do primeiro turno, portanto, ficou de fora do segundo, mas é como estivesse nele.