Bolsonaro poderá voltar ao PSL

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O primeiro artigo que escrevi sobre a relação do Partido Social Liberal (PSL) com o clã Bolsonaro foi no dia 20 de janeiro de 2019. O governo ainda estava sendo formado, e no citado artigo analisei, naquele momento, a postura do então partido do presidente Jair Bolsonaro em relação a nova gestão, haja vista, que não havia àquela altura sincronismo entre o Executivo e Legislativo, o que produzia, na prática, falta de apoio do PSL em relação as matérias de interesse do Palácio do Planalto na Câmara de Deputados.

Menos de um mês depois, no dia 17 de fevereiro do citado ano, voltei ao tema. Naquele momento, estourava as denúncias de candidaturas laranjas do PSL, respingando no governo e na imagem do presidente. Já existia um ambiente de atritos entre os Bolsonaro e o partido, sobretudo, em relação aos seus dirigentes. A corda era esticada o tempo inteiro, com maiores ou menores níveis de tensão. No período citado, o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, o falecido Gustavo Bebianno foi demitido, depois de travar uma disputa com o vereador e filho do presidente, Carlos Bolsonaro, chamado de “02”.

À época, escrevi: ” Em resumo, o fato que deve desencadear na exoneração de Bebianno, e de quebra, desnuda um outro processo: a estratégia de afastamento do bolsonarismo do PSL. A situação é simples: o referido partido recebeu Bolsonaro e a sua leva de simpatizantes, que culminou em uma reconhecida vitória nas urnas. Mas a estratégia, sobretudo de Carlos e Eduardo, ambos de atuações mais ideológicas do governo, querem uma outra “casa”, uma nova ou outra maior, com maiores e melhores condições políticas. O “laranjal”, portanto foi uma ótima notícia ao clã bolsonarista, e que validará a saída do PSL, com o discurso da corrupção. Bebianno seguirá o caminho da rua; Carlos venceu, e deu sentido a sua estratégia política”. 

Trinta e dois dias depois, o Blog voltou ao tema. Desta vez, questionando se – de fato – o PSL era governo? E tal questionamento se fazia necessário pela falta de sintonia entre os congressistas do partido e o Palácio do Planalto. Àquela altura estava no centro do debate a reforma da Previdência. Diversos deputados do partido votaram contra indicações e interesses palacianos, acirrando ainda mais a difícil relação.

Historicamente, o Partido Social Liberal (PSL) desde a sua fundação, em 1994, sempre foi uma legenda considerada “nanica”, ou seja, com pouca representatividade ou expressão política. Sua ideologia original era o social-liberalismo, que defende, por exemplo, menor participação do Estado na economia. Em 2018, o então deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro anunciou a sua filiação ao partido. A partir daquele momento a legenda cresceu rapidamente, começando a ocupar destaque no cenário político nacional. Na onda “bolsonarista”, centenas de candidaturas vieram juntas. Hoje, o PSL conta com 52 deputados federais, um governador e dois senadores (perdeu representação após a saída do presidente). Mesmo assim, indiscutivelmente, foi a legenda que mais cresceu no país nos últimos anos.

No caso da Câmara, logo após o fim do processo eleitoral, onde pode-se analisar o perfil da bancada eleita, percebeu-se logo que ela estava composta em sua maioria por aventureiros, oportunistas que – ao terem alguma visibilidade em seus ramos de atuação, mas sem nenhuma experiência política – foram eleitos puxados pela onda Bolsonarista, mas sem identidade ou ideologia.

Após isso, diversas situações ocorreram: o presidente Jair Bolsonaro pediu auditória de cinco anos nas contas do partido, buscando com isso, obviamente, inviabilizar a legenda. Mas, no meio do caminho, o PSL preparou uma vingança ao pedir auditagem nas contas de Jair Bolsonaro nas eleições municipais. Vale lembrar que, naquelas eleições (2018), surgiu o laranjal no partido (candidaturas laranjas para adquirir repasses e verbas do partido).

Como dito à época, estava em jogo volumosos recursos do fundo partidário que o PSL tem direito, pelo tamanho de sua bancada, e que soma 350 milhões de reais. Até a eleição passada, o PSL tinha um fundo eleitoral de R$ 9 milhões, e passou a ter R$ 100 milhões (fundo partidário, pois não houve eleição em 2019). Somando os fundos eleitoral e partidário quatro anos do governo Bolsonaro, em que entra a cada dois anos o complemento do fundo eleitoral, e a todo ano o fundo partidário, a soma pode chegar a 70 milhões de reais.

A ruptura ocorreu porque os Bolsonaro não controlavam como gostariam o partido, que tem como presidente Luciano Bivar, alvo do ataque dialético do presidente. Conforme dito no Blog, no momento da  ruptura estava claro que o Bolsonarismo era muito maior do que a legenda em questão e que ela havia cumprido o seu papel de acomodar esse movimento.

Após a saída do PSL, o presidente Jair Bolsonaro iniciou os movimentos para a criação de uma nova legenda partidária que foi chamada de “Aliança pelo Brasil”. Ela foi criada em novembro de 2019, e em 5 de dezembro de 2019, o vice-presidente da sigla, Luís Felipe Belmonte, registrou a legenda em cartório. Fundado com promessa de disputar as eleições municipais de 2020, o Aliança não conseguiu obter o reconhecimento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para formalizar sua criação e participar do pleito.

De acordo com a Justiça Eleitoral, até agora, o Aliança pelo Brasil só conseguiu validar 10% das 491.967 mil assinaturas necessárias. Dentre as 87.460 fichas enviadas ao TSE, 38.070 não foram aprovadas. Segundo a Justiça, entre os não aptos, 24.680 eram de eleitores filiados a outro partido, 1.515 de apoiamentos já registrados, 1.353 de eleitores que tiveram o título cancelado, 294 de eleitores suspensos, 278 de eleitores inexistentes e 87 de eleitores falecidos.

Agora sem a possibilidade de ter a Aliança pelo Brasil para concorrer à reeleição, o presidente Jair Bolsonaro estuda a possibilidade de retornar a antiga legenda. Dentro do partido existe uma dúvida grande se vale ou não a pena ter Bolsonaro em suas fileiras. O lado positivo é claro: ser o partido do presidente, ter as benesses que isso traz. Mas ainda há dúvida sobre o tamanho do ônus.

Internamente, muitos dos que ficaram ao lado de Luciano Bivar não querem proximidade alguma com Bolsonaro. Sabem que suas reeleições serão difíceis, e temem que serão mais ainda se estiverem no mesmo partido do presidente. E correr o risco de não agradar nem os apoiadores do presidente nem os que se decepcionaram com ele e podem não gostar de ver o PSL recebê-lo de volta. A ver.

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