Império que agoniza

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Ontem, 03, a agência de notícias Associated Press afirmou que nove mil pessoas já haviam sido presas em oito dias de protestos contra o racismo nos Estados Unidos. Tudo começou com a morte (muitos consideram assassinato) George Floyd, um trabalhador negro sufocado por um policial em Minneapolis, provocando um levante numeroso de pessoas que foram às ruas protestar. Os atos se alastraram para dezenas de municípios e estados americanos.

Os Estados Unidos são conhecidos por serem uma potência hegemônica no mundo capitalista, e referência de democracia liberal. Isso foi vendido ao mundo por décadas, porém ao se estudar sobre o país, percebe-se que, na prática, não é bem assim. Os EUA são hoje uma pálida sombra do gigante que emergiu da Segunda Guerra Mundial e liderou a economia mundial durante a segunda metade do século passado. A renda média vem caindo, a pobreza aumenta como nunca antes registrado.

Segundo A recuperação econômica não conseguiu restabelecer o número total de postos de trabalho perdidos durante a recessão causada pela crise, como também não criou empregos suficientes para dar conta do crescimento populacional.

Desde quando Donald Trump assumiu a Presidência do país, o número de desempregados vinha caindo. Esse era o seu maior triunfo dentro de sua plataforma de campanha para a reeleição. A taxa de desemprego nos EUA era de apenas 4,1%, a menor desde 2000. Mesmo assim, em 2016, quase 41 milhões de pessoas, ou 13% da população, viviam na pobreza – em comparação com os 15% verificados no auge da recessão, em 2010.

Mas tudo mudou para pior. Veio a pandemia do novo coronavírus e com ela – por escolhas erradas de Trump – o país tornou-se o epicentro mundial. Lidera em número de casos e de mortos. A economia com o isolamento social, afundou. Os fatos e imagens divulgadas na mídia e redes sociais retratam um país em decadência, afogado nas contradições do capitalismo e do neoliberalismo, atormentado com o desenvolvimento impetuoso da China e com o próprio declínio, que é incapaz de reverter.

Os EUA estão acostumados a ditar regras morais ao mundo e bombardear nações mais pobres (Iraque, Líbia, Síria, Afeganistão, Somália, Vietnã, Coreia) em nome da democracia, da liberdade e de outros nobres ideais. Em contraste, os fatos mostram que o governo estadunidense, conivente com o racismo e empenhado em reprimir duramente a revolta popular em seu próprio território.

O assassinato de George Floyd expôs o caráter racista do capitalismo americano, as profundas desigualdades sociais que dilaceram a sociedade e a real natureza do Estado liderado pelo bilionário de extrema direita Donald Trump. A inércia e o liberalismo que caracterizaram a reação inicial da Casa Branca à doença provocaram uma tragédia sanitária, econômica e social. Na última terça, 02, o número total de casos confirmados da Covid-19 nos Estados Unidos alcançou 1.802.470. O número de mortes chegou a 105.157, conforme dados divulgados pelo Centro para o Controle e Prevenção de Doenças Americano.

Desta forma, o “exemplo” do Ocidente é hoje o campão mundial das infecções e mortes pelo vírus. O número de óbitos causado pela “gripezinha” de Jair Bolsonaro no país é superior à soma de mortos em todas as tragédias recentes dos Estados Unidos: as guerras do Vietnã e da Coreia, os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e em Washington, o furacão Katrina, em 2005.

É emblemática a comparação com a China, grande rival dos imperialistas americanos na corrida pela liderança da geopolítica global. Com uma população em torno de 1,4 bilhão de pessoas, mais de quatro vezes maior do que a dos EUA (cerca de 330 milhões), o país asiático que registrou o primeiro caso da doença no mundo, no final do ano passado, somava 4.634 óbitos por Covid-19 até o início deste mês.

Isto não ocorre por acaso, mas fundamentalmente pela natureza das respostas dos dois regimes políticos à crise sanitária. Os comunistas chineses deram prioridade à defesa da vida e tomaram medidas drásticas, mesmo que à custa de prejuízos econômicos inéditos. Contiveram a pandemia e agora podem focar com mais tranquilidade na recuperação econômica, ao contrário dos EUA.

A ausência de um sistema público de saúde ajuda a explicar a alta letalidade da doença na terra do Tio Sam, onde a área é monopólio da iniciativa privada. A saúde foi transformada totalmente em mercadoria nos Estados Unidos, concretizando um sonho dos ideólogos neoliberais. É uma mercadoria cara à qual dezenas de milhões de americanos, pertencentes à classe trabalhadora, não têm acesso e quem não tem dinheiro para bancar atendimento médico nesse momento pode estar condenado à morte.

Os estragos na economia só encontram paralelo na Grande Depressão (1929/1933). O PIB encolheu 5% no primeiro trimestre do ano. A taxa de desemprego pulou para 14,7% em abril. O número de trabalhadores e trabalhadoras que solicitaram seguro-desemprego devido à crise do coronavírus ultrapassou 40 milhões no dia 28 de maio. O cenário deve piorar ao longo dos próximos meses.

O racismo e a xenofobia são dois destacados ingredientes do capitalismo estadunidense, que de democrático só tem a retórica. Isto transparece no fato de que negros e latino-americanos são os que mais sofrem com a crise sanitária, o desemprego em massa e a degradação dos postos de trabalho, fenômeno que antecede a atual crise. Menos de um quinto dos trabalhadores negros e menos de um sexto dos migrantes latinos-americanos conseguem trabalhar em casa durante o isolamento vigente nos estados e municípios. Nos serviços considerados essenciais, como supermercados e drogarias, esses trabalhadores permanecem obrigados a trabalhar sob condições inseguras e ganhando pouco.

Negros e latinos-americanos são as maiores vítimas do coronavírus. Dados divulgados pela prefeitura de Nova Iorque revelam a taxa de mortes para cada 100 mil pessoas é de 10,2 para a população branca, mas sobe a 22,8 entre latino-americanos e 19,8 entre os negros.
A concentração da renda é recorde na história do país: 1% dos mais ricos acumula 20% da renda, enquanto metade da população tem de se virar com 12,5%.

Este é o pano de fundo da conjuntura social conturbada que presenciamos na capital mundial do capitalismo. É a realidade de um sistema econômico que caducou, mas ainda não encontrou seus coveiros, e de uma ordem mundial que embora condenada pela história agoniza e resiste intensificando as agressões contra os povos de todo o mundo, incluindo dos próprios EUA, e as ameaças de guerra contra a China e a Rússia, ressuscitando temores e fantasmas da guerra fria.

*Artigo adaptado do original escrito por Umberto Martins. 

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