Os contrastes da indústria brasileira

A indústria brasileira em 2025 desacelerou. Os números da Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física revelam um crescimento acumulado tímido de 0,6%, frente ao avanço de 3,1% em 2024. E, ao olhar os números dos anos anteriores, em especial o índice de 2021 que foi de 3,9%, a sensação é de que a produção industrial vive uma espécie de gangorra: ora em alta, ora em baixa. Uma economia sem ritmo de expansão.

Quando se abre o número, vem à tona um retrato complexo. Enquanto a indústria de transformação, que concentra grande parte dos empregos qualificados, foi a principal responsável pela queda, o setor extrativo evitou uma queda maior, reforçando a dependência de commodities como motor de crescimento. O contraste é claro: por um lado, farmacêuticos (28,6%) e derivados do petróleo (5,4%) avançaram, e por outro, segmentos tradicionais como móveis (-25,4%), vestuário (-22,8%) e veículos (-14,7%) sofreram retrações pesadas. É sintomático que o dínamo da indústria tenha sido a produção de medicamentos: um país saudável precisa que outros setores de consumo final também avancem.

Essa dependência de commodities reforça a desigualdade do mapa industrial. Rio de Janeiro (5,1%) e Espírito Santo (11,6%) lideraram os avanços, impulsionados pela extração de petróleo e gás. Santa Catarina (3,2%) e Minas Gerais (1,3%) também cresceram acima da média nacional, sustentados por alimentos e máquinas. E o Paraná, que é um dos polos industriais mais diversificados, apresentou alta de apenas 0,3%. Porém, São Paulo, responsável por um terço da produção nacional, recuou -2,2%, impactando a média.

Economistas argumentam que o Brasil caminha em um processo de desindustrialização mesmo antes da pandemia. Diagnóstico que não é necessariamente um decreto imutável, pois o atual momento macroeconômico do País também explica boa parte dessa estagnação. Nos manuais de economia juros elevados e crédito mais restrito reduzem os investimentos privados. Em 2025, as concessões de crédito cresceram apenas 3,8%, contra mais de 10% em 2024, levando empresas a adiar projetos e cortar custos. Nas estimativas da Confederação Nacional da Indústria, mais de 84 mil postos de trabalho foram eliminados no segundo semestre.

Entretanto baixar os juros ‘na canetada’ não gera os efeitos desejados. Para que o Banco Central possa baixar a taxa de juros de modo sustentável, é necessário que o principal tomador de empréstimos da economia, o setor público, reduza o seu apetite por crédito. Ou seja, o governo precisa fazer um ajuste fiscal que, de fato, corte gastos e reduza o atual déficit primário de R$ 61,7 bilhões. Sem o equilíbrio das contas públicas, os juros não baixam, o crédito continua caro e os investimentos não são realizados.

Portanto, o saldo de 2025 é claro: a indústria brasileira está presa entre o peso das commodities e a fragilidade da transformação. Sem uma estratégia governamental que combine equilíbrio fiscal, redução dos juros e política industrial voltada à inovação, os US$ 565 milhões prometidos pelos EUA para a mineração de terras raras no Brasil serão apenas mais do mesmo e a manufatura continuará oscilando entre anos de bonança e outros de estagnação.

A indústria deve ser vista para além dos números, ela é emprego, renda e oportunidades de inserção nas cadeias globais de valor. Portanto, o futuro exige mais que crescimento pontual. Exige transformação estrutural, capaz de permitir que o setor industrial desempenhe seu papel de protagonismo no desenvolvimento do País.

Por Pedro Henrique Pontes é economista e professor do Centro Universitário Internacional – Uninter.

Imagem: reprodução

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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