Úrsula e o MDB?

O blog apresenta a análise feita pelo amigo jornalista e escritor Anderson Araújo sobre o aceite de Úrsula Vidal para assumir a Secretaria de Cultura no governo de Helder Barbalho. A reflexão foi postada em sua conta no Facebook. O blog a reproduz na íntegra. Vale a pena ler.

Úrsula Vidal teve mais de 10% dos votos válidos na eleição de 2016 pra prefeito e fez uma ferida enorme na disputa, desidratando os correntes e se apresentando como a grande novidade naquele ano. Mulher e com um discurso que encantou o povo mais à esquerda. Discurso tão bonito que, em seguida, ela abandonou, pela segunda vez, o seu partido de origem e ingressou no PSOL com pompa e circunstância e festa do cacique Ed.

Naturalmente, Úrsula desequilibraria a disputa seguinte ao governo do Estado, neste ano. Ouso dizer que ela era uma pedra no sapato dos mega candidatos, Hélder e Márcio, ambos com densidade e capilaridade eleitoral e partidos estruturados e ricos. Aposto que Úrsula estaria no segundo turno contra Hélder e poderia até vencer.

Sou maluco de dizer que Úrsula venceria Hélder? Se sou, não sou o único. Os próprios estrategistas do governador eleito sentiram o risco e a força política dela e usaram a máxima: se não podemos vencê-la, vamos nos juntar a ela. Inimigo bom é inimigo do nosso lado transformado em aliado.

Daí o óbvio já não ficou tão óbvio assim. A candidatura que os órfãos da esquerda sonhavam, de mãos dadas com feministas e ambientalistas, chancelada pelo querido Ed, não aconteceu.

Pouca gente entendeu. Eu quis esperar pra ver.

Não demorou, Úrsula anunciou candidatura para o senado, numa briga que não teria chance nenhuma devido à quantidade de candidatos fortes e a imprevisível pulverização de votos. Com a decisão dela, as perguntas continuaram:

Por que alguém que poderia ser a próxima governadora ou aumentar sua captação de votos para a eleição municipal optaria por ser candidata ao senado sem apoio e sem chances?

Quando Úrsula lançou um programa na Rádio Clube, emissora dos Barbalho onde nenhuma vinhetinha ou entrevista estão fora do controle dos patriarcas, eu entendi.

Havia ali um acordo entre a nova estrela da esquerda belenense e as velhas oligarquias de sempre.

Contraditório?

Não. A trajetória política de Úrsula possui esses vais e vens e essas, digamos, inconsistências ideológicas. Ela é uma sobrevivente atenta aos movimentos do tabuleiro de xadrez. É sensível aos movimentos sociais, mas nunca foi um quadro ativo desses movimentos mais populares e/ou identitários. Simpatizar não é nem nunca será militar por uma causa. Ela é, sim, sem dúvida, uma excelente comunicadora que pode usar essa ferramenta para o lado que achar melhor. Transitar entre os diversos tons da política paraense é normal para alguém com o perfil dela.

Creio que a contradição esteja muito mais no PSOL e seus associados. Primeiro em abraçar Úrsula sem restrições apenas por causa da quantidade de votos em 2016. Segundo por compreender esse tipo de acordo e não contestá-lo publicamente e até aceitar que a legenda fosse plataforma para a candidatura murcha ao senado a qual Úrsula protagonizou.

Não acredito em ingenuidades em política. Os caciques do PSOL podem agora dizer que não sabiam dos trâmites e acredita quem quiser. Podem vir a público dizer que a decisão é individual e até convidar Úrsula a deixar a sigla, gentilmente. Ainda assim não me convencem sobre conhecer o acordo previamente.

A indicação do nome de Ursula à Secult fecha parte do entendimento desse acordo entre ela e Hélder. Em parte. Os outros itens dessa negociação saberemos ao longo do biênio 2019/2020 e nas próximas eleições para a prefeitura de Belém. Vamos ver até onde essa lua de mel vai.

Apenas penso que Úrsula não pode nem deve subvalorizar seu capital político que, embora não seja enorme, não é pequeno e está muito além de um cargo numa secretaria com um dos menores orçamentos do estado, senão o menor.

No mais, ela é profissional do áudio visual e, em tese, conhecedora das demandas das cadeias produtivas de cultura de Belém. Espero que sua formação jornalística sirva, neste momento, à coisa pública e ela saiba lidar com as vaidades, dela e dos outros nesse terreno difícil que é a cultural; que consiga ao seu modo movimentar o setor tão necessário num estado tão violento e com uma educação precária e alienada das expressões artísticas e culturais do povo.

Só de saber que Paulo Chaves vestirá o pijama e largará o osso já é uma grande coisa. Só de imaginar que ele não terá mais a caneta na mão é um alento dos maiores.

Não contesto acordos nem sou bobo de achar que há pureza na política, daí meu desejo de sorte nessa missão a ela. Vamos acompanhar e torcer que tudo seja feito dentro de uma concepção mais democrática e popular com participação ampla dos atores sociais envolvidos nesse processo. É difícil com o MDB? Sim. Mas, vai quê.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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