Barcarena: o mais perverso exemplo do modelo de desenvolvimento instaurado na Amazônia

Em outubro de 2015, o navio Haidar, de bandeira libanesa, foi a pique com mais de 4900 cabeças de gado a bordo, no Porto de Vila do Conde, em Barcarena, localizado a 300 quilômetros da capital Belém (40 km em linha reta).  O sinistro produziu grave crise social, ambiental e econômica a referida municipalidade. O município de Barcarena até a década de 1980 se resumia economicamente na agricultura e pesca. No referido período iniciaram os processos industriais com a chegada da Albras (Empresa inicialmente de capital japonês e que verticalizava a cadeia mineral, transformando alumina em alumínio) e depois com a chegada da Alunorte, fechando a cadeia de produção da bauxita (industrialmente, em etapa anterior ao alumínio). Em seguida outras empresas foram se instalando no município, como a Cadam e a Imerys, responsáveis na produção industrial do caulim.

Seguindo o rito “desenvolvimentista”, Barcarena, assim como outros exemplos, sofreu grandes intervenções urbanísticas para abrigar esses projetos. Foi erguida pela Albras/Alunorte, a Vila dos Cabanos – cidade planejada, para abrigar os empregados das referidas empresas, especialmente as grandes da cadeia da bauxita. Hoje, a cidade não passa de um esbouço do que foi planejado, sendo hoje um espaço sem controle por parte das empresas, apresentando acelerado processo de sucateamento.

Barcarena coleciona diversas tragédias ambientais, e por inércia, tornaram-se sociais também. Em números absolutos, a referida municipalidade deve liderar o penoso ranking das tragédias ambientais. As empresas citadas, sem exceção, já se envolveram em problemas ambientais, especialmente, no que se refere a vazamentos de materiais, especialmente o caulim para os cursos d’águas da região, quase todos contaminados com resíduos. As antigas cadeias produtivas do município, especialmente a pesca, meio de sobrevivência das populações ribeirinhas, foram quase exterminadas por esses problemas. Nos últimos anos o modelo de desenvolvimento pensado e implementado em Barcarena, se esgotou. Espraiou pobreza, cristalizadas em bairros sem infraestrutura alguma, criando bolsões de miséria pela cidade. Os empregos ficaram escassos, os problemas ambientais e sociais aumentaram consideravelmente.

Na semana passada, os moradores de Barcarena voltaram a viver um inferno. Desta vez, novamente, outro vazamento nas bacias de rejeito da Alunorte. Essas piscinas contêm lama vermelha, resultante da lavagem química da bauxita para a produção de alumina, insumo usado para criar o alumínio metálico. Assim, desmentiu frontalmente a nota da empresa, que negou esse vazamento. Pior, a empresa norueguesa, Norsk Hydro, que além de ser dona da Alunorte, controla a Albras (a oitava de alumínio primário do mundo, primeira do continente) e a Mineração Paragominas (a segunda maior produtora de bauxita do país), construiu um duto que levava parte do rejeito (em excesso ao volume processado – tratado) para fora da área fabril. Um crime velado.

A ligação clandestina que libera esses produtos, muito tóxicos, por conterem metais pesados, que se acumulam internamente, para a área externa da fábrica. Os efeitos se estendem às comunidades vizinhas e contaminam rios, igarapés e poços artesianos das comunidades com os rejeitos da lavagem do minério. A contaminação por esses efluentes representa extremo risco à saúde das pessoas.

Enquanto os diversos órgãos buscam se entender e trilhar um caminho de ação prática para atenuar os problemas, a população de Barcarena continua pagando uma conta muito cara, emitida pelo modelo de desenvolvimento, sempre com grande ônus socioambiental, e com questionável retorno positivo às regiões de implantação desses projetos. Dê exemplo em exemplo, a Amazônia segue o seu triste e intermitente rito desenvolvimentista “rabo de cavalo”. Barcarena já perdeu toda a sua identidade histórica. O “progresso” a levou e mantém a região como um grande almoxarifado aos países centrais. Nada, além disso. Até quando?

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

#veja mais

BC aumenta Selic pela 1º desde 2022, e juros vão a 10,75% ao ano

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu, por unanimidade, nesta quarta-feira (18) aumentar a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual,

O Palácio, a Corte, o Rei, em Marabá

Na última sexta-feira (22), ocorreu em Marabá a posse do ex-deputado estadual João Chamon Neto como secretário Regional de Governo do Sul e Sudeste do Pará.

Número de brasileiros que investem em criptomoedas superou os da Bolsa

Os investimentos em ativos digitais estão cada vez mais populares no Brasil. Segundo um estudo recente realizado pelo Mercado Bitcoin, em parceria com a Mosaiclab,

Setor pesqueiro do Pará pode ser duramente afetado por tarifas dos EUA

Após a inclusão de diversos produtos brasileiros na nova política tarifária dos Estados Unidos, o setor pesqueiro do Pará acendeu um sinal de alerta. Além

Helder Barbalho destaca protagonismo da Amazônia em encontro com empresários, promovido pelo Brazil Journal

O governador do Pará, Helder Barbalho, participou nesta quinta-feira (13), de um almoço promovido pelo Brazil Journal, influente veículo de comunicação entre executivos e investidores

Rapidinhas do Branco – LXXIII

Vai de União Brasil Aos 48 minutos do segundo tempo, o presidente da Câmara Municipal e pré-candidato a prefeito de Parauapebas, se filiou ao União