Gerador de crises

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Um dos temas mais analisados por este Blog nos últimos 18 meses, foi a forma de agir, de atuar do presidente Jair Bolsonaro, de sua prole e apoiadores. Convencionou-se, portanto, a chamar isso de Bolsonarismo, e este sendo um movimento que conduz as diretrizes comportamentais do chefe da nação. O movimento tem regras, modelos de operação, de atuação. Uma engrenagem que funciona sob comandos, sinais.

Como já dito aqui exaustivamente, o modus operandi do Bolsonarismo é o confronto, o enfrentamento, a provocação, o embate. Atentar contra a ordem constituída. Levar aos seus seguidores a necessidade de derrubar o Establishment, ou seja, o sistema. A começar pelo fechamento de outros poderes como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional. Instituir o que chamo de “terraplanismo republicano”, que busca instituir a manutenção de um único poder (mesmo em regime democrático), e ao mesmo tempo firmando – nas entrelinhas – que os outros são desnecessários, travando, portanto, o Executivo, este sob comando de Jair Bolsonaro.

O Bolsonarismo tem como método prático esticar a corda, ou seja, provocar o confronto. Fazer subir a temperatura, aumentar a tensão. Para isso, precisa ter alvos. Um de cada vez e que se renovam o tempo inteiro, criando a fantasia do inimigo invisível. E por que isso? Para manter sob controle o apoio da militância, especialmente aquela mais ortodoxa. A que pede, por exemplo, o fechamento do Congresso Nacional e STF. Aquela que pede a volta da ditadura militar. Que defende o fim o isolamento social, a volta às ruas.

O método é sempre o de avançar uma casa, como, novamente, o presidente fez ontem (19), ao comparecer a uma manifestação (o que é proibido neste momento, que via decretos governadores e prefeitos, que visam evitar aglomerações de pessoas, afim de conter a proliferação do vírus) em apoio – novamente – ao presidente e pedido (assim como feito no dia 15 de março) intervenção militar e fechamento de outros poderes da República.

Claramente Bolsonaro incitou. Em seu discurso de improviso, buscou fomentar tais posturas e narrativas. Como se diz – esticou mais um pouco a corda. Como era de se esperar, nas horas seguintes, diversas autoridades condenaram a atitude do presidente. Notas de repúdio foram feitas, críticas em rede social foram expressas, mas nada além disso.

O presidente Jair Bolsonaro já incorreu crime de responsabilidade inúmeras vezes. Atenta quase sempre contra a Constituição. Nada efetivo contra ele ocorre. E assim como disse várias vezes, a corda vai sendo esticada. E ela pode ser distensionada, mas não volta ao ponto de partida anterior.

Enquanto este artigo estava sendo feito, nas primeiras horas da data corrente, 20, Jair Bolsonaro na saída do Palácio da Alvorada, como de costume, falou com a imprensa e simpatizantes. Deixou claro que não atentou contra a democracia, e nem a favor da ditadura. Como sempre, por conta da grande repercussão negativa (inclusive de apoiadores), outro recuo foi feito. Mas como disse antes, uma casa foi avançada.

Jair Bolsonaro é – e sempre vai ser – um gerador de crises. Foi assim por toda a sua vida parlamentar e não seria diferente da condição de presidente. Ele tenciona a corda. A estica ao máximo. Sabe que já tem provas suficientes de seus crimes de responsabilidade, ocasionando, portanto, abertura do processo de impeachment.

Alguns analistas políticos como Reinaldo Azevedo, levantam a tese de que Bolsonaro quer (e força) a abertura de seu impedimento. Sabe que isso validaria o seu falso discurso de combate ao Establishment, de quem lutou contra o sistema, validando assim uma promessa de campanha. Dessa forma, cairia como um mártir. Ele tem consciência que não está à altura do cargo que ocupa, e está cada vez mais isolado politicamente. Então, talvez, forçar o próprio impeachment seria a saída e, de quebra, aprofundaria a crise política no país, buscando o enfraquecimento de outros poderes junto a opinião pública.

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