Remoto sem controle. O dilema da Semed de Parauapebas

Há exato um ano, o ensino público municipal em Parauapebas era suspenso pela Secretaria Municipal de Educação (Semed) por conta da pandemia do novo coronavírus que iniciava a sua escalada de mortes no Brasil. Após quinze dias da suspensão das aulas presenciais, iniciava a modalidade remota de ensino. Esperava-se que, em pouco tempo, a Semed teria a capacidade técnica de buscar alternativas para a situação, como plataforma de ensino, estúdio de gravação de aulas, utilização de grade de programação de emissoras de TV local e outras.

Ensaiou-se no mês de junho de 2020, a utilização de uma plataforma que, inclusive, foi testada por este blogueiro que vos escreve e que é professor efetivo da rede pública de ensino municipal. Porém, nada avançou neste quesito.

Restou, desde o início aos professores usarem os seus aparelhos celulares para ministrar suas aulas. Se usou o formato mais simples de interação entre docentes, discentes e responsáveis: grupos de WhatsApp. O que tornou a vida do professor um caos. Dezenas e dezenas de grupos (geralmente formados por turma), e que fazem (até hoje) os docentes trabalharem sem horário definido, pois mensagens de alunos e pais chegam a qualquer dia e horário, inclusive fim de semana. Os meses foram avançando e a única preocupação dos que ocupam cargos na Semed era aumentar a burocracia para os que estão na ponta do processo. Ferramentas que buscassem melhorar a interação entre professor-aluno, na prática nunca existiu. O que se tinha era sempre a mesma retórica institucional: professor precisa buscar alternativas.

O orçamento que a Semed tem reservado para 2021, segundo a Lei Orçamentária Anual (LOA) é de R$ 476.606.200,00. Isso sem contar os repasses obrigatórios da União. Portanto, a questão não é falta de recurso (o que pode ser empenhado, por exemplo, pelo Gabinete como contrapartida a depender do custo de compra de uma plataforma ou ferramentas digitais, caso seja necessário). Não estamos tratado de um município pobre, sem recursos, em que a Secretaria de Educação mal consegue pagar a sua folha, portanto, inviabilizando investimentos no melhoramento do ensino. Estamos tratando de uma secretaria municipal cujo o seu orçamento anual é superior a 2/3 de todas as municipalidades paraenses, que somam 144.

Iniciamos o ano letivo de 2021 sobre uma chuva de promessas: plataforma digital, aparelho celular com chip para acesso à internet para todos os alunos da rede, notebook… E o que parece que essas promessas ainda irão demorar para serem uma realidade, talvez, alguns, nem se concretizem, fiquem no campo da promessa.

A pressão psicológica sobre os professores é enorme, sem contar o momento de crise sanitária, o que potencializa ainda mais essa situação. Os pais também estão na mesma situação, pois precisam lidar com o ensino de seus filhos em casa, e de forma inapropriada. Quem está em uma sala refrigerada dentro de uma estrutura burocrática institucional, não imagina o que se passa no mundo aqui fora.

Cabe também aos vereadores, em especial a vereadora Eliene Soares (MDB) que preside a Comissão de Educação da Casa de Leis, buscar ações que visem mudar essa realidade. É inadmissível que, um ano depois, ainda se mantenha um sistema de ensino remoto via WhatsApp.

Mesmo com a sinalização de que o cenário epidemiológico da região estava caminhando para o aumento dos casos de Covid-19, a Semed produziu uma consulta sobre o retorno presencial das aulas, algo que foi logo desconsiderado, pois não fazia sentindo algum para o momento. O Blog tratou da questão: “Cenário epidemiológico de Covid-19 piora no Pará e PMP faz pesquisa sobre retorno de aulas presenciais”.

Mesmo com essa pretensão de retorno, a princípio híbrido (presencial e remoto), as escolas – vazias há um ano – não foram preparadas, não passaram por reformas adaptativas para o momento, que prega, pelo menos, locais mais arejados. Como voltar com a mesma estrutura, mesmo com a capacidade de lotação reduzida e com sistema de rodízio?

Sem previsão de retorno presencial, a Semed deveria investir em ferramentas que melhorem a relação professor-aluno, visando diminuir os impactos que a pandemia trouxe para o ambiente escolar. Completamos hoje, 17, um ano de ensino remoto, e continuamos “enxugando gelo”, mesmo tendo uma secretaria de educação que detém um orçamento de fazer inveja a grandes cidades e que ultrapassa somado em um ano, 2/3 dos recursos dos municípios paraenses. Estamos há um ano de ensino remoto sem controle. O custo disso é incalculável.

Henrique Branco

Formado em Geografia, com diversas pós-graduações. Cursando Jornalismo.

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