Voando no Escuro

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O Brasil atualmente voa no escuro em relação à pandemia do novo coronavírus. Os dados divulgados pelo Ministério da Saúde, estes vindo dos entes federativos, via secretarias de saúde, formam um quadro geral sobre a Covid-19. Está mais do que evidente que não reflete a realidade. Continuamos a testar bem menos do que deveríamos (procedimento centrado em casos graves e profissionais de saúde). Desta forma, como ter a real dimensão do problema?

Estimar casos por falta de notificações foi o objetivo de um estudo recente da Escola de Londres de Higiene e Medicina Tropical, publicado no último dia 22. Segundo a pesquisa, o Brasil identifica, em média, 11% dos casos sintomáticos de Covid-19. Ou seja, apenas uma de cada dez pessoas que carregam o vírus e demonstram algum sintoma foi registrada pelo governo. Na realidade, o Brasil não sabe o número de casos de infecção espalhados pelo país e muito menos o de óbitos. Os números apresentados estão longe de refletirem a realidade.

Baseado em dados assim distantes da realidade marcada por um vírus altamente contagioso, que levam as pessoas a acreditar que podem continuar indo às ruas, onde podem se contaminar ou contaminar outras pessoas, que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta pretende afrouxar o atual modelo de isolamento tão combatido por seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com projeção do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (Nois), da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), divulgados ontem (13), os registros oficiais de Covid-19 no Brasil representam apenas 8% do número real de casos. Os índices verdadeiros seriam até 12 vezes superiores ao divulgado pelo Ministério da Saúde e poderiam já estar beirando os 300 mil.

O percentual de notificações está ainda mais baixo do que a média nacional em São Paulo (6,5%) e no Rio de Janeiro (7,2%) – os dois estados que reúnem a grande maioria dos casos do novo coronavírus. De acordo com a nota técnica emitida pela NOIS, “o elevado grau de subnotificação pode sugerir uma falsa ideia de controle da doença e, consequentemente, levar ao declínio da implementação de ações de contenção, como o isolamento horizontal”.

O Brasil é um dos que menos testa no mundo, e já está entre os 15 países em número de infectados. A testagem em massa possibilitará o fornecimento de dados mais consistentes, além disso, permite o conhecimento da real dimensão da epidemia, sendo fundamental para as autoridades de saúde dimensionarem os equipamentos necessários, além de se implementar políticas de isolamento mais eficientes, centradas nos locais de maior presença de infectados.

Se mantivermos o atual nível de testagem, bem longe do ideal, o real combate à pandemia de coronavírus torna-se um voo às escuras, em que não sabemos o destino, a trajetória, apenas seguimos para frente no movimento e com os equipamentos de sinalização desligados. A situação é muito mais grave do que se pensa, ou que o senso comum faça valer como verdade.

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